ACONTECEU COMIGO: SERÁ QUE…

SERÁ QUE…
… Se não fosse réveillon, eu não teria planejado estar numa viagem em grupo no final de semana para depois me arrepender e pensar que tudo o que eu desejava era aproveitar o verão inteiro na praia, não teria quase desistido não fosse uma amiga contando com minha parceria, não teria entrado naquele ônibus com um travesseiro e não teria, ali mesmo, te visto pela primeira vez? Será que se não fosse a distração de estar subitamente apaixonada aos dezoito anos eu não teria voado perdida em pensamentos ao invés de sair correndo para escolher a cama no quarto onde estavam minhas conhecidas, não teria sobrado sem espaço, não teria ficado absolutamente despreocupada e aceitado mais tarde a oferta do espaço ao seu lado? Será que se não fosse réveillon eu não teria dado um gole na sua cerveja, me encantado com seus olhos, iniciado um papo bobo e esquecido que haviam outras trezentas pessoas além de nós? Será que se não fosse réveillon eu não teria, com o coração na boca, te procurado um pouco antes da meia noite? Será que não teria te encontrado também procurando por mim?
Será que se não fosse réveillon nós nunca teríamos nos beijado?

Ainda bem que era.

CRÔNICA: SOBRE FELICIDADE

Boa noite.
Bom trabalho.
Me dá um beijo.
Quer meu casaco?
Tem bolo no forno.
Preparei um chá.
Deixa comigo.
Cheguei mais cedo.
Te espero acordado.
Bom dia.
Eu te esquento.
Pra você.
Não via a hora de te dizer.
Faz cócegas.
Divido o meu.
Está na mesa.
É amanhã.
Me avisa quando chegar.
Preparei seu preferido.
Qualquer coisa me chama.
Estou com saudade.
Sonhei com você.
Vamos juntos.
Mais que o infinito.
Te amo.
Dormiu bem?

ACONTECEU COMIGO: Saudades do papel crepom

– Onde você passará o DVD com os melhores momentos?
– Mas foram trezentos e sessenta e cinco dias.
– Exato, os melhores da sua vida.
– Está certo. Mas acho que deixarei acumular para quando ela comemorar Bodas de Prata.
– Você é quem sabe. E a decoração será com fotos do álbum Smash the Cake ou Newborn?
– Que?
– A decoração.
– Ah, balões. Talvez umas bandeirolas…
– Não, precisa ter fotos.
– Minha irmã tira fotos lindas…
– Olha, eu até acredito, mas crescer sem um álbum com ensaio mais profissional, entende? O tempo não volta.
– Sem problemas, estou economizando para a terapia.
– Bom, brigadeiros. Recomendo pistache, doce de leite uruguaio e churros.
– Não me diz que tiraram o Nescau do mercado?!
– Certo, entendi. Prefere o bom e velho chocolate. Belga?
– Nescau.
– Chocolate orgânico 70%?
– Nescau.
– Olha, as famílias hoje estão meio reticentes com relação à gordura trans…
– Nescau, coxinha frita e bolo com glúten.
– Certo. Então quem sabe uns canapés para os pais?
– São todos da década de setenta. Ou oitenta e olhe lá. Um bolinho de queijo e escorrerá uma lágrima de emoção no canto dos olhos.
– Lembrancinhas personalizadas nem pensar, né?
– Não. Vamos voltar ao que interessa.
– Certo. Aniversário da sua filha.
– Isso.
– O que você queria saber mesmo?
– Se eu posso encomendar o bolo aqui…
– Pasta americana ou naked cake?

ACONTECEU COMIGO: Feliz 2016

Trinta e cinco. Não troco por nada neste mundo. Nem pelo corpo de vinte ou sequer por suas possibilidades infinitas. Mais norte, menos neuras: viva o que ganhamos com o passar dos anos. Para o próximo estão programados, além da tatuagem que nunca tive coragem, a liberdade que só um – desculpe o vocabulário baixo, mas não há sinônimo à altura no Aurélio – foda-se bem dado é capaz de oferecer. Cansei de perder minha paz.

Prefiro. Vermelho. Na casa, na unha, nas roupas. Nina Simone, The Cranberries, mulheres cantando – não é sexismo, mas fascinação. Beleza Roubada, meu filme. Como Água para Chocolate, meu livro. Melhores que terapia. Ou pensando bem, adoraria voltar para a terapia. Sanidade, alívio, paixão: colocar os pensamentos no papel. Não gosto de novela, não sei quem é aquele ator, desculpe. Se quiser conversar sobre roupas, procure outra pessoa: descobri faz pouco o que é MK. A favor da legalização da maconha e do aborto. Raramente perco a paciência. Perdi com você? Acredite, passou dos limites. Ou me acordou cedo. Frequento grupos de Whatsapp por convenção social, me enlouquecem. Sei fazer baliza, carregar mala, matar aranha. Sexo frágil só na hora de abrir o vidro de palmito.

Preciso. Cafeína para começar. Merlot para terminar. Não negociáveis. Um bom papo e te conto minha vida. Viver no campo, cheiro de bolo saindo do forno, de refogado, de lavanda. Altamente viciada em assumir dezenas de projetos paralelos. Ócio, quem? Dias de vinte e quatro horas e sou eu quem preciso dar um jeito do meu mundo caber neles.

Amo. Eu te amo na hora certa, eu te amo na hora errada, eu te amo sem hora alguma. Ser protetora incondicional de pesadelos, detentora de beijos mágicos que curam machucados e da receita secreta de suco do Hulk. Orgulho de filho querendo voar, felicidade com filho querendo voltar. Cheiro de filho, abraço de filho, sono de filho, risada de filho, pergunta de filho, mundo de filho, filho. Casamento e maternidade, meus dois pés no chão e coração nas alturas. Esquece, é mais: meu universo.

Sou. Dois quadros pintados pelo meu avô, herói, gigante enfeitando minha vida: um rabino e o viaduto da 23 de maio. Judaísmo e minha cidade natal. Tantos anos depois e uma mensagem ao pisar em casa “chegou bem, filha?”. A intimidade de saber que minha TPM é curada com chocolate branco ou uma dose etílica. A intimidade. Abraço sem motivo. “Dormiu bem?”. Lar. Leão, ascendente em escorpião. De meiga, só a fachada. Ordem externa, caos interno. Solitária sem solidão, amante do silêncio.

Quando eu crescer. Quero. Muito. Ainda.

Viciada em retrospectivas de dezembro. Sempre tão bom fazer um balanço. Num ano maluco e com perspectivas difíceis, desejo que possamos seguir respeitando o que preferimos, precisamos, amamos, somos e olhando para nossas possibilidades, que continuam infinitas.
Feliz ano novo!

ACONTECEU COMIGO: Por que interrompi seu silêncio para dizer que te amo

“Sobre o que eu falo agora?”. Quando precisamos nos mostrar interessantes, os assuntos são planejados e qualquer silêncio tem um poder devastador de constrangimento. Dezessete anos atrás era este o meu pensamento no carro.

Nos conhecemos numa viagem, uma semana antes, e não lembro ter dito muita coisa além do meu nome nos três dias em que estivemos juntos. Não houve nessidade, tempo ou oportunidade, ocupados que estávamos com a paixão à primeira vista. Então voltei para a praia em que passava férias e para a completa realização da adolescente que habitava meu corpo, ele veio me buscar. Uma hora e meia no carro, somente nós dois.
Nos conhecíamos tão pouco, apesar de nos conhecermos tanto.

A verdade é que nos meses seguintes ou até nos primeiros anos, nunca faltava assunto. Todos os dele eram interessantíssimos para mim e provavelmente a recíproca era verdadeira, já que ele sempre voltava. E ficava. No começo temos uma infância inteira para contar, a adolescência, os trabalhos, as experiências, as viagens, os ciúmes, os gostos, os nojos. O que falta é tempo para a ânsia de colocar o outro a par da nossa vida.

Um dia, notamos que já dissemos quase tudo. E passamos a falar do dia de hoje, do chefe, do trânsito, dos planos para o final de semana. Se ele continuar ficando, a gente precisa discutir sobre a aliança – algumas vezes -, o apartamento, o sofá, o teste positivo, o berço, o pediatra.

Já conversamos, compartilhamos, discutimos. Hoje, eu tenho certeza que ele ficará. Amanhã acordaremos juntos, contaremos sobre o dia, a rotina, os planos, as idéias, a política. A minha certeza, eu sei, é a dele também. E não tem qualquer relação com a discutida aliança.
Quase duas décadas após aquele dia no carro, ainda tenho ânsia por chegar em casa para colocá-lo a par dos meus pensamentos. E todos seus assuntos continuam interessantíssimos. Apesar dos anos, da vida real e da adolescente ter abandonado há anos meu corpo. Nosso tempo voa porque há tanto por compartilhar ou porque precisamos de silêncio, sozinhos. Mas juntos. E ele é compreensão, cansaço, respeito, amor. Sem poder algum de constranger.

Ainda anseio por nossa uma hora e meia todos os dias.

Ficaremos.

ACONTECEU COMIGO: Who the fuck

“Mano, mano, manooooo”. Assim uma matéria na revista TPM citava a emoção de uma pré-adolescente ao saber que seu tio, jornalista, entrevistava a razão de seu afeto descontrolado. Título da matéria: “Who the fuck is Kefera”. Pois acompanhe. Kefera é uma youtuber de sucesso, celebridade capitalizada com milhões e milhões de seguidores. Seus vídeos abordam assuntos tão relevantes quanto ‘como fazer número dois na privada alheia’ e o livro homônimo ao seu canal virtual é best-seller. Eu cá, fazendo oficina literária, citando Simone de Beauvoir em programa de rádio e Kefera vendendo em um semana o que escritor indicado a prêmio literário não vende em dez anos de labuta intelectual. Inspira. Afinal, não é surpresa alguma em tempos de pensadoras com sobrenome artístico de referências glúteas.

E enquanto você pasta como empresário optante pelo Simples, tem blogueira ornada com bolsa verde limão alavancando o PIB do país com curtidas ao postar foto com cara de ‘New Yorker rock’n roll’ enjoada. Talvez seja um sinal do fim dos tempos improvável até para Nostradamus.

Pois certa nostalgia remete a março de 1985.

Uma geração de crianças apaixonadas – sem sequer saber o significado de paixão – por um grupo musical denominado Menudos. “Who the fuck are Menudos”, talvez os adultos perguntavam-se à época. Acompanhe. Menudos era um grupo musical ultra brega de adolescentes Porto Riquenhos que fez uma geração inteira decorar coreografias ridículas. Conheço particularmente a história de uma menina que no ano citado tinha quatro primaveras e um poster do grupo na porta de seu quarto. Ela chupava dedo, tinha medo do escuro e dormia feliz olhando a tal foto que deve ter tido uma tiragem de dar inveja à criadora de Ilariê, outro sucesso cultural da época. Pois tão desesperada estava a menina para conhecer seus ídolos, que implorou para que a mãe comprasse três ingressos para o show do dia dezesseis no estádio do Morumbi: um para cada uma, além da irmã caçula, de dois anos. No dia não houve “Mano, mano, manoooooo” pois esta gíria surgiria apenas algumas décadas mais tarde, mas a mãe me contou por estes tempos que ouviam-se gritos ensurdecedores de crianças histéricas que já deveriam estar era na cama. Choveu. Roy, Robi, Ricky e Johnny atrasaram. Foi o inferno na Terra. Especialmente quando chegaram e começaram com sucessos musicais afinados como “Não se reprima”. Se não ficou claro, explicito: a mãe santa em questão era a minha e a criança surtada que fazia coreografias ridículas aos quatro anos era eu.

Fica a esperança. Não me reprimi e inclusive me redimi, apesar de algumas marcas eternas como o fato de não conseguir me desfazer do tal disco. Talvez – torçamos – tenha mais a ver com Freud que com Nostradamus e não seja um sinal dos fim dos tempos.

Foi mal aê, Kefera.

INSPIRAÇÃO: “Ninguém no mundo poderia nos dizer o que ele seria capaz de fazer”

“Ninguém no mundo poderia nos dizer o que ele seria capaz de fazer. Ou não. Iria falar, brincar como as outras crianças, se alfabetizar, namorar, dirigir, ir pra faculdade, casar?”

Ter filhos é descobrir um novo universo cheio de amor e risos, mas também repleto de novas preocupações e prioridades. Claudia Zirbes, mãe de duas meninas, conhecia bem estas mudanças e com a chegada do filho caçula, já tinha a experiência e tranquilidade para percorrer estes caminhos. Ao menos, era o que ela acreditava.

Em seu primeiro ano de vida, Guilherme desenvolveu as habilidades de sugar, firmar o pescoço, virar, sentar e engatinhar. Era sorridente, dormia e se alimentava bem. Logo começariam as palavrinhas.
Aos quinze meses, a ausência de fala começou a preocupar. Aos vinte e um, com outros sintomas, ele foi encaminhado para a neuropediatra. E diagnosticado com autismo. “O Gui não demonstrou atenção compartilhada na idade esperada. Hoje entendo que este é um dos marcadores precoces do autismo, possivelmente o mais importante. E diz respeito ao desenvolvimento do nosso cérebro social. São aquelas habilidades que fazem o bebê ser capaz de comunicar mesmo quando ainda não fala palavras claras, pois ele aponta para algo do seu interesse e olha pra você para certificar-se que você está vendo, além de passar a exibir outros comportamentos tipicamente sociais do ser humano: olhar para onde apontamos, dar tchauzinho, começar a imitar os outros ou trazer objetos pelo simples prazer de mostrar para os pais”.

A partir deste momento, foram invadidos por um novo e assustador universo onde ninguém é poupado. Iniciaram uma verdadeira maratona de consultas, avaliações e encararam a lacuna de um caminho concreto e seguro a ser seguido. Mesmo a família tentando ser resiliente, a falta de um diagnóstico claro não ajudava em nada assumir a condição de Guilherme. “Afinal, assumir o que? Aceitar o que? Se ninguém te diz nada concreto. Uns diziam que podia ser outros que tinham certeza que não era. Somente após os quatro anos e com uma intervenção mais organizada, Gui começou a oralizar as primeiras palavrinhas e nós começamos a viver com mais leveza a nossa vida com o autismo”.

Claudia diz isso com a segurança de quem teve a vida devastada por medos e incertezas e pelo luto dos sonhos e expectativas depositados no filho caçula. “O autismo costuma impactar as famílias de forma mais intensa do que muitas outras condições até mais graves, o que é explicado pelo diagnóstico lento e inconsistente, pela dificuldade de encontrar intervenção adequada, pelo fato de ter de lidar com muitos profissionais simultaneamente (e que na maioria das vezes não se entendem), pelas discrepâncias entre a aparência física sem alterações da criança e seu comportamento atípico, pela ambiguidade dos sentimentos que alternam entre esperança, raiva e impotência, pela pressão de amigos e familiares para tentar toda e qualquer nova técnica – ou benzedura – que surge, mas principalmente, por todo o preconceito que ainda insiste em existir na nossa sociedade. Desta forma, o filho é o autista, mas o sentimento de exclusão é muitas vezes inexorável à família”.

Foi necessário aprender a lidar com o incerto e a traçar planos em passos pequenos. Significou aprender a lidar com o sofrimento, manejar a dor, transformar em crescimento o que parecia sufocante. Estudar. Dialogar. Se espiritualizar. E realizar uma completa imersão na forma como alguém com autismo experimenta o mundo. “Só assim conseguimos estabelecer uma melhor conexão com eles que os respeitem, mas que também os desafiem para a vida”.
Claudia hoje mantém no Facebook a página Autismo e Possibilidades e integra o Instituto Autismo e Vida, formado por um grupo de pais que viu a necessidade de disseminar conhecimento e diminuir o preconceito.

(Fonte: Arquivo pessoal)

(Fonte: Arquivo pessoal)

A mudança, aparentemente tão cruel, também trouxe à família de Claudia uma nova perspectiva sobre a vida. Ela explica que filhas certamente sofreram com a ausência, tristeza e a raiva que invadiu a casa. Mas conheceram mais sobre seus pais e sobre elas próprias. Sobre fraquezas, limitações, dores e fracassos. Sobre poder, amizade, união e capacidade de superação. Aprenderam juntos que sofrer faz crescer. E a fazer com que pequenos desfrutes sejam alegrias memoráveis.

“Minhas filhas aprenderam a emprestar suas vozes para lutar contra qualquer tipo de preconceito. São engajadas socialmente. Aprenderam a calçar os sapatos dos outros. Falam sobre autismo com propriedade. Defendem os excluídos. Tem uma causa por que lutar e levam a mensagem adiante. Tem valores que poucas adolescentes têm. Orgulham-se da família. Orgulham-se do irmão. Ajudam-nos com o Gui. Aprenderam a ver beleza onde quase ninguém vê. São sinceras. São reais”.

Claudia as chama de heroínas.
Sorte da sociedade que aprender a inspirar-se em heróis reais.

(Fonte: Arquivo pessoal)

(Fonte: Arquivo pessoal)

CRONICA: Viva Lourdes

Perla acordava doce. Cabelo engrenhado, olhos tentando recusar o sol que insistia em brilhar. Um leve mau-humor não era suficiente para abafar o ar pueril. Perla acordava verdadeira. Cheiros verdadeiros, olheiras verdadeiras, corpo verdadeiro. Perla, doce.

Maria estava sempre apressada. O mau-humor da manhã era responsável pelo atraso habitual. Engolia um suco pronto de laranja e equilibrava, entre pastas de trabalho e tablet, o pão com geléia que comeria no caminho. Maria não tinha tempo. Tinha o trabalho, a conta de luz que precisaria pagar na volta, a geral no armário de panelas. Maria precisava voar.

Patricia era eficiente. Metódica, eficaz, cabelo liso, sombra cinza, gloss avermelhado. Digitava, tabulava, colocava a palavra certa em cada sentença. Sorria quando deveria sorrir. Falava quando precisava falar. Apoiava os óculos metodicamente sobre a mesa. Eficiente, perfeita, Patricia.

Lourdes era visceral. Tirava o desconfortável soutien já no carro. Ouvia jazz no máximo volume. Acendia um cigarro, abria um vinho. Respirava fundo. Sentia. Era. Existia. A sombra borrada e o cheiro de perfume misturado a desodorante e suor faziam dela essência. Era ela entre o que fora e o que estava por vir. Viva Lourdes.

Noeli era correta. Pijama, Ave-Maria, novela, saladinha. Cheiro de sabonete. Deitava na cama, tomava a vitamina D, ajeitava a placa nos dentes. Tentava relaxar os pensamentos, torcia por sono ininterrupto. Sonhava. Era quase hora de ceder a vez.
Perla estava por vir.

ACONTECEU COMIGO: Somos ainda violentadas

“Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino.”
(Simone de Beauvoir)

E assim, quase sete décadas após o lançamento de Segundo Sexo, a frase volta a gerar polêmica. Ainda mais numa prova em que jovens que precisam refletir sobre a questão. Ainda mais quando, na mesma prova, precisam escrever sobre a perpetuação da violência contra a mulher na sociedade.
Querem saber? Lindo. Reflexão valiosíssima em pleno século vinte e um, opinião da coxinha aqui.
Simone era marxista e a própria igualdade entre gêneros historicamente mesclou-se com a igualdade entre classes. Mas vamos lá: passaram-se sessenta e seis anos, precisamos resumir esta discussão a ‘coxinhas x petralhas’?
Uma semana após as mulheres terem sido privadas do direito sobre seu corpo e de seu futuro com a proibição de qualquer método abortivo e, ainda, poucos dias após um maravilhoso debate nas mídias sociais sobre assédio, nenhum tema poderia ser mais aplaudido.
Sou defensora ferrenha do capitalismo. E sou feminista moderna, das que jamais queimariam um soutien, como já escrevi tantas vezes. Precisamos separar estes conceitos para podermos discutir sem qualquer contaminação assuntos relevantes. E a frase de Simone de Beauvoir precisa ser pensada.
Esqueçam Bolsonaro. Esqueçam Maria do Rosário. Esqueçam estereótipos.
Tornamo-nos mulheres quando assumimos nossa essência. E com ela brigamos no mercado de trabalho que escolhemos. Tornamo-nos mulheres quando gestamos – no útero ou no coração. Ou quando escolhemos não gestar. Tornamo-nos mulheres quando assumimos o direito de escolher com quem nos relacionaremos. Tornamo-nos mulheres quando nos empoderamos de nosso corpo. Tornamo-nos mulheres quando encaramos – chorando, berrando ou denunciando. Tornamo-nos mulheres quando assumimos o direito de sermos quem quisermos, de nos vestir como quisermos, de trabalhar com o que quisermos, de viver como quisermos.
Tornamo-nos mulheres quando assumimos nossa essência. E por causa dela somos sim abusadas e violentadas. Ainda. Em pleno século vinte e um. Não acredita? Pergunte para cinco mulheres ao seu lado, uma amostragem microscópica, e depois multiplique. Somos milhões abusadas ou violentadas.
Reflitam, jovens. Reflita, sociedade. Porque ainda haverá muitas tornando-se mulheres.

CRÔNICA: Camembert verde e amarelo

#Repost

A partir de hoje, sou francesa. Não quero que meus filhos façam manha e pretendo terminar as refeições com queijos.
Antes de entrar na maternidade, olhava para aquelas crianças berrando no supermercado por causa de um iogurte ou jogando queijo ralado no suco de laranja em pleno restaurante, diante de pais condescendentes com olheiras e pensava: “Ah, quando eu for mãe…”.
Pronto. Sou mãe. E para a surpresa das minhas convicções, meus filhos já protagonizaram caos em supermercados, jogaram farinha no chá gelado, enquanto eu – que sim educo, imponho limites e criei as ‘regras da casa by Super Nanny’ – estimulava:
– Isso, joga um pouquinho mais de farinha e depois ainda tem o sal. Daqui a pouco eu acabo de almoçar e podemos sair correndo.
Já me flagrei pensando em qual momento meus planos foram por água abaixo e finalmente, um sucesso editorial me trouxe a resposta: é tudo culpa da educação brasileira. Portanto, além de termos em nossa herança cultural a caipiroska de seriguela, somos exageradamente protetoras e entramos no mundo de nossos filhos ao invés de trazê-los ao nosso. Exótico.
Acabou o xixi? Peraí que estou indo arrumar sua cueca
Não gosta de tomate? Eu te faço macarrão com bifinho.
Quer brincar de princesa? Vamos lá.
Lutar como monstro? Vou te pegar!
Descalço não, aqui estão a meia e o sapato. Dá o pezinho.
Quer fazer uma tatuagem de canetinha na minha mão? Pequena, tá?
Programação do final de semana? Quatro festas infantis.
Vamos comer fora? Naquele restaurante com recreação e batata frita.
Acontece que, além do papel de super mãe, também gosto de sentar no sofá, com os pés para cima e os olhos fechados, adoro comida indiana e filmes não indicados para menores de doze anos. Só que com um detalhe: sem culpa.
Desta forma e com a solução para o equilíbrio pronta, simples e debaixo do meu nariz, resolvi adotar a técnica:
– Mãe…
– Oui
– O que tem de sobremesa
– Camembert
– Ah, não pode ser danoninho?
– No
– Por favor….
– Está bem vai, é petit suisse. Traz que eu te dou na boca