CRÔNICA: De cabeça para baixo

Eu me achava sem paciência.
Eu dormia bem.
Eu não sabia gritar.
Eu era infalível.
Eu acreditava que não tinha tempo.
Eu colocava a comida na boca, mastigava e deglutia.
Eu fazia yoga.
Quando estava sem tempo, o jantar era miojo.
Eu escolhia a estação de rádio.
Eu retornava as ligações.
Eu carregava uma bolsa leve.
Eu fazia happy hours.
Eu chegava em casa e curtia o silêncio.
Eu achava que o cúmulo da preguiça era dormir de maquiagem após uma festa.
Eu tomava banho de porta fechada.
Eu tinha uma casa arrumada.
Eu achava que puerpério fosse uma espécie de molusco.
Eu não comia alimentos babados.
Eu usava brincos compridos.
Não sabia de cor o número de telefone de nenhum médico.
Eu ouvia um choro em local público e permanecia sentada.
Eu escolhia o restaurante sem me preocupar se ele teria batata frita.
Daí eu tive filhos.
O molusco virou caos. O yoga, colo. O miojo, feijão. O banho, público. A batata, gourmet.
A vida virou de cabeça para baixo.
E assim ela passou a fazer todo sentido.

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