ACONTECEU COMIGO: Feliz 2015

Tradição é coisa séria. Foi por isso eu peguei uma folha em branco, num dia ensolarado, em meu café preferido da cidade e escrevi por horas. Rascunhei, rabisquei e refiz o texto algumas vezes. É a minha tradição e no primeiro dia de cada ano, reservo uma tarde para ela.
Uma introdução é sempre bem-vinda: lá no final de 2005, vivendo longe de tanta gente, resolvi escrever um e-mail de final de ano contando muito do tinha acontecido nos últimos trezentos e sessenta e cinco dias. Enviei e me arrependi alguns segundos depois – não seria completamente desinteressante saber detalhes tão pequenos da vida de alguém comum? Acontece que para a minha completa surpresa, o retorno foi incrível e minha caixa de entrada ficou cheia de mensagens lindas e próximas – apesar da distância. Como se não bastasse, foi divertido demais. Vivemos dizendo que o ano voou e às vezes não paramos para pensar nos detalhes que fizeram com que iniciássemos este período de uma forma e acabássemos de outra. A gente muda a cada trezentos e sessenta e cinco dias e colocar isso em perspectiva é terapia das melhores.
Nestes anos, acabei expandindo o e-mail para o blog e depois, para a mídia a social. Da família e amigos próximos, para os menos íntimos. Para os que encontro quase sempre e os que quase nunca (ou nunca). Houveram os anos intensos e os com acontecimentos completamente corriqueiros. Teve até um em que decidi não escrever e acabei intimada por tantas pessoas queridas já com um pezinho no réveillon. E até hoje, guardo numa pasta todas – todas – as respostas destes últimos dez anos. Estou pensando seriamente em renomeá-la ‘felicidade’.
E assim, para descrever 2014, eu preparei um texto enorme. Li e reli. Em seguida, apaguei tudo. Dez anos é muito tempo e seguir o mesmo formato é absolutamente… Monótono.
Lembrei que, algumas semanas atrás, encontrei uma amiga que não via há tempos e colocando a conversa em dia, escutei dela uma frase libertadora: “aprendi a me permitir mudar de convicções”. Perfeito. No aprendizado dela, a perspectiva do meu ano. Dos meus anos. Resolvi que a mensagem desta vez teria a ver com mudanças de script. De como muda a vida e também nossa forma de encará-la. Afinal, aconteceu comigo inúmeras vezes.
Para fazer sentido. 2003:
Recém-chegada ao Rio Grande do Sul, estava surpresa com minha dificuldade de adaptação à cidade. Poucas referências, poucos amigos e pouco tempo disponível. Durante o dia, trabalhava no marketing de uma das marcas mais queridas dos gaúchos e em seguida, partia para um MBA, seguindo o protocolo redondo de quem almejava uma carreira executiva.
Além disso, tinha outro recém: o casada. E o primeiro ano só diz que é uma lua-de-mel quem já esqueceu. Ou casou virgem. Ou quem gosta de brincar de Senhora Perfeitinha, vai saber… O começo é completa (e nada simples) adaptação e do sucesso dela, vem as chances potenciais de olhar para a pessoa que dorme ao seu lado e, em algum determinado momento, perceber que sua vida não faz mais sentido sem ela.
Mais alguns anos. 2009:
Joguei minha carreira executiva para o alto, cansada de obedecer horários, e fui trabalhar com vendas. Rodei este estado de Vacaria a Pelotas, sempre sem ver a hora de retornar à Porto Alegre, cidade que já amava. Voltar para São Paulo, nem pensar. Aqui eu tinha referências, amigos e uma casa recém construída. Também aqui nasceu, neste ano, minha primeira filha, iniciando a parte mais incrível da minha vida e também a virando, junto com meu casamento, de cabeça para baixo. Hora de reaprender a andar de mãos dadas com a cabeça cheia de novas preocupações, madrugadas sem dormir e novos papéis a assumir. Muita adaptação. E a pessoa que dorme ao meu lado continua sendo aquela sem quem eu não viveria – mesmo (e especialmente) quando entre nós, alguém veio trazer cheirinho de talco no meio da noite.
Por fim. 2014:
Nos últimos anos, abandonei a representação comercial e, mordendo a língua, tive uma intensa fase de mãe em período integral (agora de dois). Em seguida, voltei à ativa, abri e fechei uma empresa de assinatura de frutas picadas, inaugurei outra virtual para vender presentes e escrevi um livro, projeto de completa realização de sonho que eu, fazia anos, deixava para ‘um dia, quem sabe’ (todas as palavras entre o “fechei” e o sabe'” couberam nos últimos trezentos e sessenta e cinco dias).
Hoje eu não voltaria para São Paulo, mas já não me apego a Porto Alegre. E minha cabeça está repleta de planos. Bons – porque prefiro meu copo sempre meio cheio – mas ambiciosos, com potencial capacidade de mudar o script.
Mudei muito e, além do aprendizado, ganhei de presente a oportunidade de experimentar a minha vida. Perseverança é necessária quando a gente escolhe os caminhos que quer seguir.
E um deles, eu escolhi: a pessoa que dorme ao meu lado. A vida, eu quero experimentar ao lado dele. E dos que vem dormir – chutar, revirar e abraçar – entre nós no meio da noite.
Que em 2015, possamos escolher essências e nos permitir quebrar convicções.
Feliz vida!

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