INSPIRAÇÃO: Quando a rotina deixou de fazer sentido, eles escolheram sentir

(Por: Nurit Masijah Gil)

Na vida, muitas vezes assumimos repertórios decorados, extraídos do senso comum. Ligamos o piloto automático e cumprimos tarefa atrás de tarefa para chegar numa meta auto-imposta. Até porque sonhar diferente, mudar os planos e jogar tudo para o alto seria muita loucura, né? Ou talvez não. Conheça hoje a história da Mayra, que com a família, trocou a carreira executiva e os confortos materiais por manhãs com cheiro de terra e noites contando as estrelas.

Amanhecer no sitio

Amanhecer no sítio

Recém-formada em publicidade, Mayra tinha a convicção de não casar e não ter filhos. Como todos os diretores de grandes empresas que ela conhecia eram homens, acreditava que ‘ser mulher’ era incompatível com uma carreira executiva bem sucedida e duradoura e assim, na vida profissional, vestia a “armadura” da mulher-macho, fechada e boca-dura. Conforme começou a atuar no mercado, passou a conhecer mulheres inspiradoras que mantinham esse equilíbrio ‘vida pessoal-carreira’ de forma aparentemente harmoniosa. Exemplo era Ana Serra, que fundara uma agência do zero com dois sócios e a transformou em uma das maiores do país em apenas dois anos, onde inclusive, Mayra trabalhou no início de sua vida profissional. As antigas convicções começaram a quebrar e foi então que ela conheceu seu marido, Malusco. Curiosamente, para alguém que não queria casar, o processo entre namoro e morar junto foi muito rápido, coisa de seis meses e com o marido – que já era pai de Mariana, então com três anos, de um casamento anterior – passou a habituar-se também com a idéia de ter filhos. E assim, um ano e meios depois, sem planejamento mas para a alegria do casal, chegou a Alice. Mais um ano e veio a Luiza. A felicidade estava imensa e a família, completa, mas com as crianças pequenas e ela ainda estabelecendo-se no mercado de trabalho, a vida ficou punk. Mesmo assim, Mayra não deixava de encarar tudo como algo que precisava ser feito, o que uma mulher durona faria. Tudo-ao-mesmo-tempo-agora. E ela subiu na carreira, adquiriu respeito e liberdade. Só não ficou sem a culpa – velha conhecida de todas nós. Alguns anos mais tarde, Malusco saiu do mercado publicitário para dedicar-se ao seu trabalho autoral de arte. Ela incentivou e no fundo queria fazer o mesmo, mas estava feliz pois se “a mamãe não estava em casa, o papai estava”. Ele as ajudava na lição, estava lá caso uma delas se machucasse e ela trabalhava tranquila. Mas a idéia de um dia fazer o mesmo continuou lá, hibernando…

Como surgiu a vontade de mudar?

Foi uma série de fatores, na verdade. O trabalho continuava sendo um ponto focal na minha vida. Mas eu comecei a ter dúvidas. A esse altura, eu já tinha saído das agências de publicidade e estava trabalhando no Google. Por mais que fosse incrível e eu gostasse muito da empresa e do que fazia, não conseguia me imaginar sendo uma diretora ali. Para mim, não dava pra fazer aquilo o resto da vida. Me orgulhava do que havia feito até então, mas não sabia para onde iria depois. Muita gente fica infeliz no trabalho, muitas vezes por falta de reconhecimento, por condições ruins de trabalho. Mas se eu estava infeliz na empresa dos sonhos de qualquer um, era porque não era pra eu estar no mundo corporativo. Quando percebi isso foi uma libertação. Mas acho que o ponto que mais influenciou foi, infelizmente, mais uma história de violência urbana. Quando as meninas nasceram, nós morávamos em São Paulo e quando a Luiza fez três anos, nos mudamos para a Granja Viana (bairro nos arredores de São Paulo conhecido pelo verde e por uma atmosfera de vida de vila). E foi nesse bairro aparentemente pacato que o Malusco e as meninas sofreram um sequestro, com arma na cabeça e tudo mais. Levaram nosso carro e nossas coisas, mas pior do que isso, levaram nossa paz. As meninas não foram as mesmas depois disso. Nós nos fechamos até para os nossos amigos. No meio desse processo, fomos tomando contato com realidades diferentes, de gente que vive fora da correria da cidade grande e que fez o tal “caminho de volta”. Foi a primeira vez que ouvimos falar em Permacultura e o conceito de viver da forma mais auto-sustentável possível. Produzir seu próprio alimento, energia e fazer com que o ambiente seja harmônico para despender menos recursos para suprir nossas necessidades. Decidimos que era hora de mudar e sair desse ciclo louco de consumo pra manter um padrão irreal. Nos morávamos numa casa com três suites, hidromassagem, piscina, três salas, jardim e quadra de futebol. Tinha empregada, jardineiro, piscineiro e nos matávamos pra manter essa estrutura. Pra que tudo isso? Tinhamos um dinheiro guardado (que não era muito, mas tinha que dar) e com ele compramos uma chácara (na verdade só o terreno) em Ibiuna, a 70km de São Paulo. Estamos construindo a casa com um ateliê, onde já mordos e trabalhamos. Decidimos diminuir a bagagem pra deixar a caminhada mais leve.

Sala da casa nova

Sala da casa nova

Como é a vida hoje?

Bom, quando imaginei uma vida no sítio, imaginava aquela cena bucólica de acordar todas as manhãs, ir ao galinheiro e pegar os ovos fresquinhos, colher verduras na minha horta e fazer um almoço orgânico para as crianças. A vida real ainda tem sido um pouco diferente. Assim que a casa se tornou minimamente habitável (ou seja, tínhamos um quarto, uma pia na cozinha e um banheiro funcionando), nos mudamos.

Cozinha do sítio, com ervas da horta penduradas para secar

Cozinha do sítio, com ervas da horta penduradas para secar

No entanto, fomos percebendo que aquela estrutura que imaginamos, demora a ser feita. O galinheiro e a horta não se constroem sozinhos e uma das premissas que tínhamos é que iríamos fazer tudo da maneira mais simples e autônoma possível. Então leva tempo. Uma das lições que tenho aprendido é a ter paciência. As coisas demoram muito mais do que imaginávamos, mas temos que aprender as respeitar os diferentes ciclos da terra, do clima e até de nós mesmos. Pra alguém imediatista e impulsiva como eu, é uma lição difícil de aprender. Mas isso também torna cada conquista mais saborosa. Esta semana conseguimos plantar novas mudas na nossa cerca viva e temperos na espiral de ervas.

Espiral de ervas recém construída...

Espiral de ervas recém construída…

... E hoje, repleta de temperos e ervas medicinais

… E hoje, repleta de temperos e ervas medicinais

Nossos maracujazeiro está dando frutos, nossa lavanderia e o ateliê estão ficando prontos. Um passo de cada vez, um dia depois do outro.

Torta feita com amoras recém colhidas do pé. Além da amoreira, há uma jabuticabeira, uma nespereira, um maracujazeiro, uma mexeriqueira e um limoeiro

Torta feita com amoras recém colhidas do pé. Além da amoreira, há uma jabuticabeira, uma nespereira, um maracujazeiro, uma mexeriqueira e um limoeiro

A rotina aqui tem 3 partes: A casa, as crianças e o trabalho. Acordamos as 6h para levar as crianças para a escola. Tentamos separar a parte da manhã pra encaminhar as coisas do estudio quando estamos mais tranquilos só nós dois para discutirmos sobre trabalho e efetivamente conseguir concluir alguma tarefa mais longa em silencio. Na hora do almoço nos revezamos para pegar as meninas no colegio e temos uma pausa para o almoço. Num dia especialmente mais cansativo, nos permitimos uma pequena siesta, e a tarde é reservada para trabalhar e ajudar as crianças com as lições, se necessário. Agora no verão estamos deixando para fazer as tarefas fora da casa (jardinagem, hortinha, reparos) mais para o fim do dia, por conta do sol forte. Depois que as crianças dormem, as 20h, usamos o tempo e a calmaria para assistir um filme, ler ou trabalhar mais um pouco. A rotina de limpeza e organização da casa é o que mais nos enlouquece e estamos ainda tentando achar um modelo. Uma das premissas que buscamos ao construir a casa era que ela fosse pequena e com cômodos simples, para deixar tudo o mais próximo e funcional possível. No projeto, planejamos dois quartos (o nosso e o das crianças) uma sala, um banheiro e cozinha, além da área de serviço. No fim, como o pé direito é bem alto, acabamos fazendo também um mezanino, que serve de biblioteca e sala de estudos.

Como você sente que a mudança influencia a vida de suas filhas?

Malusco e Alice construindo a casinha na árvore

Malusco e Alice construindo a casinha na árvore

Elas estão mais tranquilas. Fico feliz ao ver a Luiza brincando de cozinha e comidinha no quintal todos os dias. A Alice gosta de sair pra explorar o sítio e andar de bicicleta na rua. Percebo menos ansiedade nelas. Trouxemos para cá todas as parafernálias eletrônicas que já tínhamos (videogame, iPad, iPod, computador) e as meninas amam. Mas apesar de termos nos mudado pro mato, não quero criar bichinhos do mato. A familiaridade delas com tecnologia é importante e quero que elas sejam conectadas e informadas, mas que entendam a real necessidade dos objetos e não apenas do consumo pelo consumo.

Luiza no quintal

Luiza no quintal

E qual a maior mudança na sua vida?

Estou num momento libertação dos padrões: assumindo meus fios de cabelo brancos, já não preciso usar salto nem maquiagem todos os dias. Tenho mais tempo pra mim. Antes não conseguia terminar um livro sequer, porque lia uma página e caía exausta. Agora, só nesse mês, já estou no meu terceiro livro.

De tudo o que abriu mão, sente falta de algo? 

O que mais doeu foi mudar as crianças de uma escola que elas adoravam. Tentamos por seis meses mantê-las lá, mas era muito complicado dirigir mais de 80km por dia pra levá-las pra escola. Tivemos que procurar uma escola aqui na cidade, que não é ruim, mas é bem diferente do clima que elas tinha lá.

Mezanino da casa

Mezanino da casa

E eu tive empregada grande parte da minha vida. Não ter empregada é algo que é difícil de se acostumar, mas hoje percebo que é para onde estamos todos caminhando no Brasil e isso é uma coisa boa. Quem vai morar na Europa acha tudo lindo, mas ninguém tem empregada e todo mundo se acostuma. A gente está indo por esse caminho também. Algo que estamos aprendendo é planejamento e adaptação. Um exemplo: O sítio é afastado e depois de uns dias lembrando que tinhamos esquecido de comprar pão na cidade, começamos a fazer nosso proprio pão. Manter a dispensa cheia de farinha e fermento é mais fácil do que ir a padaria (que fica a 10km de casa) todo dia. Para os dias de preguiça, mantemos também um pequeno estoque de pão congelado.

Quais os prós e contras da vida antes e depois da mudança?

Essas ovelhas são nossas vizinhas

Essas ovelhas são nossas vizinhas

Prós: – Ver as crianças mais livres e a percepção delas conforme tocam o ambiente, sobem nas árvores, correm no mato. – Acordar com o som dos pássaros, dormir com o som dos grilos e o coaxar dos sapos, ver MUITAS estrelas a noite. Sentir o cheiro da terra de manhã. – Uma rotina de vida que não é sufocante, não viver no piloto automático: acordar, engolir o café, maquiar-se no carro a caminho do escritório, trabalhar, trabalhar, trabalhar, ficar no trânsito, desabar no sofá, tomar banho, demaiar na cama. Hoje sou dona do meu tempo. Paro quando quero parar, me aprofundo no que quero me aprofundar. – Sentir que estamos construindo algo que tem significado para minha família e para mim. – Momento ostentação: aqui tem água! A única benfeitoria que o sítio já tinha quando o compramos: um poço. Tenho água fresca e a vontade e não pago a SABESP.

Contras: – Ter que lidar com a distância e falta de estrutura de uma cidade pequena. Se precisar de algo mais complexo, tenho q ir para São Paulo e aqui na zona rural não temos alguns serviços básicos, como farmácia e padaria, que ficam a, no mínimo, 8km. – Dinheiro, claro. O salário de executiva em São Paulo não se compara a um salário de freelancer no interior. Precisamos de muito menos pra viver, mas não podemos nos empolgar numa compra, jantares fora ou num projeto para a casa pra não sairmos do orçamento. – A distância dos amigos. Isso posso dizer que foi revelador: nossa mudança gerou uma queda considerável no número de amigos. Nós vivíamos rodeados de gente, festas aos finais de semana, recebíamos bastante em casa. Mas teve gente que simplesmente não entendeu o que buscávamos, que nos chamaram de loucos, de hippies e que simplesmente se afastaram. Gente que tinha orgulho de me apresentar pros outros como “minha amiga que trabalha no Google” e hoje mal olha na cara. Mas posso dizer que os bons, os amigos de verdade, ficaram. E vem nos visitar aqui e a gente vai visitá-los também, embora fique um pouco mais difícil nos encontrarmos no impulso. Acho que colocarei isso na lista dos prós, porque no fim, descobrimos os amigos de verdade.

Conte um pouco sobre a Casa das Coisas Selvagens

A Casa das Coisas Selvagens surgiu da nossa vontade de fazer arte com um propósito. Nós acreditamos em um movimento de retorno à simplicidade, de desaceleração. No viver com menos, no feito a mão e nos pequenos prazeres da vida. Queremos através da Casa das Coisas Selvagens transmitir isso e proporcionar esses momentos para os nossos clientes através da arte, objetos para a casa e também serviços de restauração de objetos, em sua maioria reaproveitados ou feitos com materiais de demolição.

E você, qual o seu sonho? Pare e preste atenção. Talvez seja o caso de levá-lo mais a sério.

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2 thoughts on “INSPIRAÇÃO: Quando a rotina deixou de fazer sentido, eles escolheram sentir

  1. marcelle diz:

    Que legal a matéria! Eu conheço a Ebenai, trabalhamos juntas na Wunderman! Tenho uma historia semelhante! Fui publicitaria durante 16 anos e larguei tudo para ser professora de ensino fundamental ciclo 1. 😍 a historia da Ma eh uma vela inspiração! Tem q ter muita coragem para transformar mas qdo isso acontece de fato eh libertador.

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    • Nurit Gil diz:

      Marcelle,
      Parabéns por sua coragem também. É inspirador quem tem a coragem de “virar o jogo” quando percebe que a rotina deixa de fazer sentido.
      Seja bem-vinda ao blog!
      Abraços,
      Nurit

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