INSPIRAÇÃO: Ela cruzou o oceano. E manteve os pés no chão

(Por: Nurit Masijah Gil)

Hoje, a coluna inspiração entrevista Milena Castino, paulista que emigrou para a Inglaterra há sete anos e que nos conta, com os pés bem firmes no chão, os percalços e alegrias de quem escolheu viver com uma bagagem repleta de experiências.

A história começa treze anos atrás, quando uma amiga convenceu Milena a reinstalar o ICQ, aplicativo de bate papo que ela não usava desde 1996. Mas uma vez instalado, a amiga não conversou com ela. Assim, resolveu procurar alguém online para praticar o inglês.
Foi nessa hora que sua vida começou a mudar.
Encontrou o inglês David, com quem falou das 8h às 18h já no primeiro dia. Isso tornou-se uma rotina constante e o que era uma simples amizade virtual, virou namoro à distância, numa época em que não havia sequer Facebook. Foi uma fase delicada, em que família e amigos foram contra. Naquele tempo, conhecer alguém pela internet era perigoso, não tinha como saber nada sobre a pessoa. Mas mesmo com tantos obstáculos, principalmente burocráticos, acabaram casando-se em março de 2007.
Milena tinha uma carreira promissora e resolveu mudar-se para a Inglaterra e testar o mercado local. No entanto, chegou literalmente com a maior recessão econômica dos últimos tempos e isso teve um impacto gigantesco em sua vida.

(Fonte: arquivo pessoal)

(Fonte: arquivo pessoal)

Atualmente fala-se muito em viver no exterior. Qual é a sua realidade como imigrante num pais distante?

Eu sempre tive uma alma um pouco nômade, embora seja extremamente apegada à família. Eu tinha sede de cultura, de História e a Europa é um dos lugares mais ricos do mundo nesse sentido. Eu tenho uma relação de amor e ódio com a Inglaterra. Por mais que eu ame muitas coisas aqui, nunca foi fácil ser imigrante e não é uma questão de ser Brasileira – Ingleses adoram qualquer coisa do Brasil. O problema em imigrar é literalmente ter que construir uma vida do zero. Cheguei aqui com uma mão na frente e outra atrás, poucas economias e uma vontade imensa de fazer a vida e viver de amor. As pessoas reclamam do Brasil mas não fazem ideia do que é morar em um país conservador como aqui, nada funciona, nada te protege, não tem código de defesa do consumidor, não tem lei trabalhista, não tem 13o, FGTS, nada. Aqui tudo funciona através de um esquema de créditos: quanto mais contas você paga, melhor seu crédito é. Se você acabou de chegar aqui, seu crédito é tão ruim quanto o de quem não paga conta nenhuma. Eu demorei três anos para ser aprovada para um cartão de crédito e dois anos para poder ter uma conta pós paga de celular.
Não vim com emprego certo e meu marido nunca foi rico. No começo ainda fiz excelentes entrevistas na minha área, que era marketing de moda. Mas existem leis que protegem o cidadão local durante recessões econômicas, e acabei perdendo inúmeras oportunidades. Fiquei quase 1 ano tentando me colocar em marketing, mas não havia emprego e a minha experiência estava ficando para trás. E eu tinha que pagar contas então tive que literalmente começar tudo de novo. Fui babysitter, recepcionista de hotel, trabalhei anos em lojas, vendi chá, café, lingerie, jóia, desenvolvi habilidades em mim que sequer imaginava que existiam e isso foi incrível. Eu curti muito cada emprego, por mais difícil e mal remunerado que fosse. Hoje tenho uma carreira em ascenção na area de projetos de tecnologia, completamente diferente do que eu fazia no Brasil. Trabalhei por quase quatro anos na Microsoft e agora cuido de uma área nova de serviços de nuvem na Vodafone. Mas foram precisos sete anos para chegar onde estou, para me considerar satisfeita profissionalmente e esquecer um pouco essa coisa de me recolocar em marketing. E esse é o tipo de coisa que me enche de orgulho, essa possibilidade de crescer sozinha, de fazer as coisas acontecerem sem a ajuda de ninguém, que só morar fora te traz. Cada dia longe é um aprendizado sobre você mesmo.
Outra coisa que também é difícil por aqui é fazer amigos como a gente faz no Brasil. Ingleses não são nem um pouco frios, mas raramente se abrem o suficiente para que laços de amizades verdadeiras sejam desenvolvidos. Sem contar que boa parte das pessoas também é imigrante e um dia vai embora, só você continua.
Obviamente a parte mais difícil do processo de imigração é lidar com a distância e com a saudade. Eu sempre fui super família, então deixar minha mãe, minha irmã e meu cachorro foi a parte mais dolorida. Ainda tem todo aquele peso de expatriado com o qual nos acostumamos, mas que é sofrido: acompanhar a nova geração da família crescendo de longe, não participar de datas importantes, gravidez, casamentos, ver sua família envelhecer e não estar por perto, perder pessoas. E nem vou começar a falar sobre o inverno! (Risos)

(Fonte: arquivo pessoal)

(Fonte: arquivo pessoal)

Em compensação, a Inglaterra tem coisas maravilhosas. Eu tenho uma vida tranquila em uma cidade pequena. Colho morangos no meu jardim enquanto minhas coelhas brincam e isso não tem preço. Posso andar relativamente segura na rua, posso trabalhar de bicicleta. Claro que existe crime, mas não é corriqueiro e muito menos banalizado.

(Fonte: arquivo pessoal)

(Fonte: arquivo pessoal)

Além disso, a Inglaterra é um berço de música de qualidade, tem os melhores festivais e shows do mundo. As estações do ano são bem definidas, o verão é incrível e tem dias que não acabam mais, o outono é o mais lindo que já vi. Mas a minha parte favorita desse país é sem dúvida o interior, o lado rural, as pequenas vilas. Esqueça Londres, que é tão cosmopolita – o interior é cheio de gente simples e hospitaleira, tem o verde mais verde que você verá na vida, animais selvagens, florestas, pubs e casas mais antigos que o Brasil e milhares de anos de História. Eu sou completamente apaixonada pela quantidade de História que te rodeia aqui em qualquer lugar.
Você viveu momentos delicados nestes anos, mas manteve-se firme na sua decisão de estar na Inglaterra. Conte-nos um pouco sobre suas escolhas.

Meus últimos dois anos foram mais complicados. Fui diagnosticada com uma doença auto-imune que mudou completamente a minha rotina e debilitou meus movimentos por vários meses. Mas tive muito apoio e cuidado do meu marido e do meu emprego na época, hoje estou com ela controlada. Ano passado foi um ano bem tenso, meu marido ficou desempregado por mais de 1 ano, tivemos que lidar com a descoberta da infertilidade, perdi meu cachorro, perdi meu emprego, tive depressão. Cheguei ao meu limite aqui e cogitei ir embora. Mas acho que sou teimosa. Poderia ter largado tudo e voltado facilmente para o Brasil, quem me conhece sabe o quanto amo o nosso país. Mas a verdade é que eu curto me desafiar e ver até onde posso ir, o que posso conseguir, o que posso colocar na minha bagagem de vida. Acho que ainda tenho mais o que conquistar aqui, sou muito exigente comigo mesma.

(Fonte: arquivo pessoal)

(Fonte: arquivo pessoal)

A decisão de continuar veio unicamente com a proposta de emprego novo, foi uma oportunidade de deslanchar definitivamente minha carreira em TI. Caso contrário eu teria voltado.
A parte boa de tudo isso é que todo sofrimento te fortalece e passar por provações sozinha, longe de todos, me fortaleceu ainda mais. E hoje a vida tem me dado uma linda bonança.

Como era a sua vida no Brasil? Além da convivência com família e os amigos, o que mais deixou para trás?

Deixei uma carreira com meio caminho andado no Brasil acreditando que poderia crescer mais ainda aqui e não aconteceu. Trabalhei por mais de dez anos com marketing de moda, em grandes empresas de moda, trabalhei durante a Paris Fashion Week, poderia estar muito bem hoje. Mas troquei tudo pela possibilidade de aprender coisas novas, de mergulhar no incerto, de fazer acontecer.
No Brasil eu também tinha todo o respaldo de uma família super unida, eu tinha a companhia constante dos meus amigos. Isso foi bem difícil de deixar para trás. Quando você deixa a rotina das pessoas, inevitavelmente deixa de pertencer um pouco às suas vidas. E é difícil lidar com isso no começo.
Eu não me arrependo de nenhuma escolha que eu tenha feito, embora os caminhos tenham sido mais tortuosos do que eu esperava. Acho que nossas escolhas são resultados do que éramos no momento e só elas nos transformam no que somos hoje. E eu sou muito feliz com quem eu sou hoje. Tudo o que eu fiz até hoje só me acrescentou e me fez evoluir como ser humano.

Se fosse começar novamente, seguiria a mesma trajetória para viver um grande amor?

Não. Sempre brinco dizendo que não lerei conto de fadas quando tiver uma filha. Eu era muito nova e acreditava cegamente em amor romântico, em príncipe encantado. Minha expectativa de amor era o que Hollywood havia me vendido. Eu achava que dava sim para viver de amor e de cabana, e simplesmente não dá. Relacionamentos não se sustentam só com amor, tem as contas para pagar, tem vida para se fazer. Casamento expôe e desafia qualquer amor.
Eu larguei tudo por amor porque não suporto viver com o fantasma do “e se”: e se eu tivesse ido, e se eu tivesse feito. Sempre preferi dar a cara a bater e assumir as consequências. Eu ainda acredito no amor, claro, mas aprendi a olhar as coisas com razão e não só com a emoção.
Como eu disse antes, não me arrependo de nada e acho que eu e meu marido temos amor de sobra para segurar tudo isso, mas eu jamais mudaria uma vida inteira novamente por alguém. É preciso muito desapego e abdicação, e eu ainda trabalho isso em mim diariamente.

(Fonte: arquivo pessoal)

(Fonte: arquivo pessoal)

Você adora escrever e o faz muito bem. Conte um pouco sobre o Samba de Gringo.

Obrigada! O Samba foi meu quinto blog, comecei em 2002, onde eu registrava minha experiência em um dos anos que morei aqui antes de casar. Eram textos cheios de humor, que tinham bastante aceitação. Sempre escrevi desde que me conheço por gente, e durante uma época resolvi focar mais no meu estilo literário, e tive um retorno enorme. Me enche de felicidade quando alguém se identifica completamente com um texto o meu. O Samba já me rendeu muitas alegrias. Foi através dele que participei de vários projetos literários, tive publicações em dois livros de novos autores, diversos artigos na internet e fiz até um programa com o Olivier Anquier! Sem contar um mundaréu de gente que realmente admira meu trabalho e isso não tem preço. Quando era mais nova, morria de medo de deixar alguém ler meus cadernos porque não queria que julgassem meus textos. Hoje em dia, cada compartilhamento, cada comentário, cada palavra de incentivo me dá motivação para continuar fazendo o que mais gosto. Escrever, para mim, é catarse. E estou trabalhando em alguns projetos novos, ainda quero lançar um livro com os meus contos.

Já dizia Clarice Lispector “Eu tenho medos bobos e coragens absurdas”. Quais as suas coragens?

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