INSPIRAÇÃO: Uma história sobre a luta pelo direito de viver cercado por amor

(Por: Nurit Masijah Gil)

Há vinte anos, o destino uniu Rafael e Lúcio, que conhecerem-se numa livraria da capital gaúcha e nunca mais se separaram. Mas a partir daquele dia, a história do casal – pais de João Vitor, hoje com cinco anos – deixou o acaso de lado e foi plena de força de vontade e disposição para que seus sonhos virassem realidade.

(Fonte: arquivo pessoal)

(Fonte: arquivo pessoal)

Após dez anos vivendo juntos em um apartamento pequeno na capital, Lucio e Rafael decidiram procurar um novo lar e acabaram encontrando uma casa num condomínio bucólico, localizado próximo a Porto Alegre. Lá, resolveram investir num restaurante que segundo Lúcio, foi quando viveram os dois anos mais complicados da trajetória deles. No entanto, como a vida é repleta de surpresas, foi também neste período em que teve início a maior transformação desta história.

COMO SURGIU A IDEIA DE AUMENTAR A FAMÍLIA?

Quando tínhamos o restaurante, costumávamos organizar eventos divertidíssimos em que a casa ficava lotada e todo o valor arrecadado era doado para instituições de crianças carentes. Apesar de nós termos família grande, sobrinhos e afilhados, foi este o momento, após onze anos juntos, em que despertou a vontade e o instinto de viver a paternidade.
Inicialmente, logo após vermos no jornal uma matéria sobre a Clínica Esperança, consideramos o apadrinhamento afetivo. Fomos até a prefeitura, fizemos a inscrição e esperamos. Após um ano e meio, ao verificar como estava nosso processo, mencionamos que tínhamos a intenção de adoção da criança que apadrinhássemos e, para nossa surpresa, ficamos sabendo que o processo para adoção era outro completamente diferente. Foi frustrante, mas reiniciamos e demos entrada com toda a nova documentação. Fizemos a entrevista e, após seis meses, por nos considerarem aptos, entramos no Cadastro Nacional de Adoção (CNA). É um processo longo e repleto de expectativas. Uma das dicas que sempre damos a pais que estão nesta espera (inclusive no Instituto Amigos de Lucas, um grupo de apoio a pais na fila de adoção do qual fazem parte) é visitar constantemente o andamento do seu processo. Não adianta apenas esperar, é importante insistir e estar presente.

E COMO JOÃO VITOR CHEGOU?

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(Fonte: arquivo pessoal)

Ficamos três anos e meio na fila. O perfil da criança que procurávamos era bem amplo, o que facilitou muito a situação. Um detalhe interessante é que, apesar de estarmos vivendo esta espera, não contamos para ninguém – família ou amigos – até para evitar cobranças e não gerar ainda mais ansiedade.

No dia 8 de outubro de 2010, O Rafael estava trabalhando em casa e recebeu a ligação. Uma criança dentro do perfil acabara de chegar da Casa de Passagem e queriam saber se gostaríamos de conhecê-la. O coração ficou a mil. No horário marcado, estávamos no fórum, extremamente felizes e ansiosos, escutando a história do bebê até aquele momento. Foi a primeira vez que vimos nosso filho. As assistentes nos entregaram o João Vitor, com apenas quatro meses, que imediatamente agarrou nossas camisas. Difícil conter a emoção, foi um reconhecimento imediato e mútuo. De repente, não poderíamos mais viver sem ele.
O processo natural é que seja feita uma adaptação de um mês, em que os pais visitam a criança periodicamente e, neste tempo é feita a documentação de guarda. Mas não dava para esperar, era nosso filho. Perguntamos se o João poderia sair conosco naquele dia, véspera de feriado e as assistentes, que já nos conheciam das constantes insistências e, emocionadas com a situação, juntamente com a juíza chamaram o escrivão para que fizesse um documento de visita prolongada. Saímos do fórum, naquele mesmo dia às nove da noite, com um bebê no colo e uma sacola que continha apenas algumas fraldas, leite em pó e remédio para a bronquiolite que ele tinha na ocasião.
Como esperávamos uma criança de zero a cinco anos, não tivemos como nos preparar. Não sabíamos o tamanho das roupinhas, nem se dormiria num berço ou numa cama. Então, passamos num supermercado, fizemos algumas compras para o João passar a noite e seguimos para casa. Para completar, como ainda acreditávamos que nosso filho demoraria a chegar, estávamos no meio de uma reforma. Imagina a loucura. Assim, seguimos para a casa da Janete, vizinha e amiga querida que nos deu uma ajuda imensurável.
A partir do dia seguinte, começamos a surpreender nossos familiares e amigos, que não faziam nem ideia de que éramos pais. Foram momentos muito intensos de felicidade.

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No fórum (Fonte: arquivo pessoal)

ATUALMENTE FALA-SE MUITO EM NOVOS FORMATOS DE FAMÍLIA. VOCÊS SENTEM ESSA ACEITAÇÃO? SENTIRAM ALGUM PRECONCEITO AO LONGO DO PROCESSO?

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(Fonte: arquivo pessoal)

Nunca. Foi sempre muito natural, desde a adoção. Muitos homossexuais dão entrada sozinhos no processo de adoção, para depois o parceiro(a) entrar com processo de dupla paternidade ou maternidade. Nós já iniciamos o processo como um casal e para o fórum de Gravataí (RS), esta estrutura foi muito bem-vinda. Claro que é comum escutarmos sobre processos de casais homossexuais engavetados, mas este não foi nosso caso. E desde o início, tanto nossa família, nosso círculo social, quanto a escola de João Vitor, aceitaram muito bem a situação. O próprio João, que conhece sua história, vive nos abraçando e dizendo, feliz “eu tenho dois pais, né? O pai Rafa e o pai Lúcio”.
Certa vez, na escola, uma criança perguntou ao Rafael como era possível que João tivesse dois pais, já que ele sabia que crianças nasciam de um pai e uma mãe. A resposta foi simples e esclarecedora: o João tinha nascido dos nossos corações. Pronto. As crianças não tem preconceito e com convivência e esclarecimento, conseguem entender e respeitar com tranquilidade as diferenças.

VOCÊS VENCERAM UM LONGO PROCESSO PARA GARANTIR A LICENÇA MATERNIDADE. FALEM UM POUCO SOBRE ESTE EPISÓDIO.

O João veio de uma situação longe de ser ideal, passando por abandono e vivência em Casa de Passagem, além de ter sido rejeitado por um casal que estava na fila antes de nós por causa do tom de sua pele. Quando chegou à nossa família, precisamos colocá-lo na semana seguinte na creche. Não tivemos aqueles meses de amor e adaptação em casa. Na mesma época, uma colega de serviço do Lúcio também adotou uma criança e imediatamente teve a licença maternidade garantida. Por que o nosso filho não tinha este direito a este cuidado?
Questionamos o INSS na ocasião sobre esta situação e fomos então informados de que deveríamos apresentar uma documentação para que pudessem garantir a licença. Prontamente o fizemos. Em pouco tempo, recebemos a resposta negativa com a justificativa pura e simples de que não tivemos período gestacional. Inacreditável.
Recusamos-nos a desistir. Entramos com recurso e demos início a um processo administrativo contra o INSS. Após algum tempo, marcaram a entrevista para dali a um ano e no dia marcado, com a documentação em mãos, saímos vitoriosos.
Comemoramos até sofrer um novo baque: apesar do INSS (RS) ter aprovado, a Câmara de Julgamento em Brasília recorreu e marcaram, novamente para o ano seguinte, outra audiência onde deveríamos apresentar contra-razões. Foi então que preparamos um dossiê de quinhentas páginas explicando o porquê deveríamos ter este direito, embasado primordialmente em duas premissas: primeiro, a de que pela Constituição Federal, todos são iguais perante a lei e segundo, conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA, todas as crianças têm direito a este período de licença, para receber amor e cuidados exclusivos.
No dia da audiência, marcada em Brasília, participamos via teleconferência e do outro lado da tela, dezenas de pessoas analisariam nossos argumentos. Estávamos apreensivos. Foi longo, mas um por um, foram concordando com nossas justificativas. Vencemos por unanimidade e fomos aplaudidos em pé.

(Fonte: arquivo pessoal)

(Fonte: arquivo pessoal)

Além de o João ter recebido o direito que qualquer criança também tem, foi um precedente importante para casais na mesma situação. No dia seguinte à audiência, foi publicada a sentença e o fato virou notícia nos telejornais do Brasil e no exterior. Fomos atrás e saímos vitoriosos.

Ao final da minha conversa com Rafael e Lúcio, assisti a um lindo filme com imagens dos melhores momentos da chegada de João Vitor, que eles prepararam para o primeiro aniversário dele. Comentaram que o João sempre chora quando vê o filme ou escuta a trilha sonora deste vídeo. Para as crianças, é difícil denominar emoção, mas o João, sensível, certamente sabe que recebeu da vida o mesmo presente que seus pais: o direito – bravamente adquirido – de viver cercado por amor.

MAIS UM FINAL FELIZ:

Na semana desta matéria, fomos surpreendidos com uma decisão inédita que beneficiará histórias como a da família Quadros Gerhadt.

Fonte: Zero Hora – (Por: Gustavo Foster) 19/03/2015 | 20h56

“Pela primeira vez, STF reconhece direito de adoção por casais homossexuais
Em uma decisão histórica e inédita, a ministra Carmen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal, reconheceu o direito de um casal homossexual de adotar uma criança. É a primeira vez que o STF se posiciona favoravelmente sobre o assunto. O acórdão, referente à decisão de 5 de março, foi publicado apenas nesta quinta-feira – e fez com que os mineiros Toni Reis e David Harrad saíssem imediatamente para comemorar.

– Estamos felizes demais com essa decisão da ministra, que, de uma vez por todas, dá fim à discussão. Nós somos uma família, sim – comemora Toni, professor de 50 anos, casado com o tradutor David há 25 anos.”

Leia esta matéia neste link.

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5 thoughts on “INSPIRAÇÃO: Uma história sobre a luta pelo direito de viver cercado por amor

  1. Messias Moreno diz:

    Eu também tenho uma menina que aumentou minha familia com meu companheiro.
    Realmente é uma coisa fantastica e estou aberto para divulgar esses modelos de familia.

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    • Nurit Gil diz:

      Messias, que bacana! Que o amor prevaleça sempre. Bom saber que está disposto a compartilhar a história da sua família. O que acha de fazermos uma matéria adiante?

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