ACONTECEU COMIGO: A judia riquinha. Ou a menina que amava confetes

Meu avô paterno nasceu na antiga Iuguslavia, de onde fugiu com a família, perseguido na Segunda Guerra pelo simples fato de ser judeu. Viu a morte, passou fome, cruzou a pé fronteiras entre países e numa idade em que deveria conhecer o amor e a liberdade, conheceu o inferno. Seu navio aportou no Brasil, onde trabalhou pesado e, alguns anos mais tarde, quando já representava materiais de escritório, reencontrou na sinagoga um amigo da terra natal. Juntos, numa história emocionante de empreendedorismo, trabalho muito duro e visão, criaram uma das maiores fábricas de lingerie do Brasil.
Fizeram fortuna.
E foi neste contexto que nasci, em berço de ouro. Vivi sim uma infância cheia de luxos (que acabaram, mas aí já é outra história) e fartura. A casa dos meus avós era linda, enorme, cheia de arte. Mas de tudo, o que mais me fascinava era o furador de papéis do meu avô. Adorava aquela engenhoca que furava e guardava bolinhas perfeitas em seu interior. E assim, até 1988 – ano em que ele faleceu – o dia que mais aguardava do ano era o Carnaval, quando nós dois íamos para a frente da casa e jogávamos confetes, feitos das tais bolinhas, que ele guardava todos os dias para mim. Sim, meu avô era incrível.
Quando eu tinha dez anos, sai do colégio judaico em que estudava para, por questões diversas, frequentar um laico. No primeiro dia de aula, ainda tímida, fiz minha primeira amiga.
– Em que língua é seu nome?
– Hebraico.
– Por que?
– Porque sou judia.
– Nossa! Mas se você quiser, pode mudar de religião, sabia?
Eu detestei todos os quatro anos que estudei lá, onde era conhecida como “a judia riquinha”, em tom sempre pejorativo, como se o dinheiro da minha família fosse fruto de condição religiosa ou de vergonha qualquer. Se eu não dividia o lanche, era “a judia pão dura”. Se fosse bem na prova, era “a judia CDF”. Em qualquer situação era “a judia”. Tinha amigas sim, mas elas acreditavam que não havia preconceito em me denominar assim. E nesta idade, se acreditavam nisso, era porque escutavam em casa.
Dentre todas as minhas características, sou judia em cada milímetro da minha alma. Não sou religiosa, mas pertenço a este povo incrível que apenas existe porque pessoas com uma força sobrenatural como o meu avô sobreviveram para que pudéssemos ter liberdade e contar nossa história.
Neste final de semana, um antropólogo publicou no maior jornal de Porto Alegre uma matéria em que afirma que judeus fazem sacrifícios com animais. Falta de informação publicada – e não foi a primeira – além de ignorância, é irresponsabilidade. Enquanto crescem curtidas e compartilhamentos, nós ganhamos preconceito. E por ele, meu avô conheceu o inferno quando deveria conhecer o amor.

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