INSPIRAÇÃO: Um agradecimento por dia

(Por: Nurit Masijah Gil)

Todas as noites, ela publica na mídia social um ‘agradecimento do dia’, contagiando conhecidos com o sentimento de que não devemos passar pela vida cotidiana sem algo a agradecer e mostrando que sempre – por pior que possa parecer – há um motivo bom e maior para sorrir. Advogada, Carla Chisman escolheu a profissão para que desta forma, pudesse ajudar aos outros. Nunca teve o compromisso pessoal de ser famosa ou reconhecida: queria trabalhar no que amava, deixar seus clientes satisfeitos e sonhava, após casar, dar um tempo na carreira para ter filhos e dedicar-se a eles. Quem conhece sua trajetória, pode crer que as dificuldades ensinaram-na a ser uma grande otimista, mas ela corrige: acredita que foi escolhida para viver desafios como forma de ensinar às pessoas próximas e distantes os valores que sempre teve e sua forma positiva de encarar a vida.

VOCÊ PASSOU POR UM MOMENTO DELICADO. O QUE MUDOU NA SUA FORMA DE ENCARAR A VIDA?

Sinceramente, não vejo que mudou. Eu sempre encarei a vida como hoje. Sempre achei mais importante passar momentos com pessoas queridas a me matar de trabalhar. Nunca pretendi ser uma alta executiva e deixar minha família com empregadas e babás. Nunca pretendi largar meus pais. Sempre achei mais importante a felicidade que o dinheiro. Já pedi demissão de lugares em que ganhava muito dinheiro mas que não me faziam feliz. Digo que fui abençoada até na doença, pois atingiu o único órgão não vital do meu corpo. A história comecou quando senti uma dor e fui ao médico. Num primeiro momento, ele acreditou que eu estivesse grávida e me encaminhou para o ultrassom, onde descobrimos o Leumiossarcoma intrauterino. Na cirurgia para retirá-lo, o médico percebeu que não era um simples mioma. Então, três dias depois, no retorno ao consultório, o fatídico diagnóstico. Surtei, chorei, berrei e poucos segundos depois – lembro como se fosse hoje – olhei nos olhos do médico e disse que queria operar no mesmo dia. Não queria saber de nomes e teorias, queria a cura. Uma semana depois, realizei a histerectomia total (útero, ovário, trompas e perineo) e em quinze dias, fiz a primeira sessão de quimioterapia, que durou seis meses. Foi difícil perder o cabelo, cílios e sombrancelhas. O rosto fica horrível. Fiquei fraca e extremamente cansada. Mas é um preço pequeno se comparado à possibilidade de continuar viva. Acabei o tratamento em 2007 e no ano seguinte, corri a meia maratona do Rio de Janeiro. Participei também da São Silvestre e fiz duas travessias. Em 2014 tive alta do acompanhamento periódico com o oncologista. Cura? Certeza!

VOCÊ ABRAÇOU UMA RELIGIOSIDADE MAIOR COM O PASSAR DOS ANOS. COMO FOI ACONTECENDO ESTA MUDANÇA?

Eu sempre gostei muito do judaísmo, mas nunca tinha tido um contato mais profundo com a religião. Quando morei no Rio de Janeiro, senti falta das minhas referências judaicas de São Paulo e comecei a frequentar mais a sinagoga, onde me sentia acalentada. Em 2001, já de volta, conheci um rabino que teve uma postura muito próxima e tocante. Foi então que me senti atraída definitivamente pela religião. Eu sempre acreditei em D’us e que não há uma gota de orvalho que caia senão pela vontade divina.

E QUANDO SURGIU A VONTADE DE AUMENTAR A FAMÍLIA?

Sempre quis ter família grande com muitos filhos. Meu marido, que conheci alguns anos após a cura, também. Mas eu já não poderia engravidar. Na época da doença, congelei alguns ovários pensando em, futuramente, fazer barriga de aluguel, mas acabei desistindo pela falta de estatísticas (jurídicas, psíquicas e materiais) deste processo. Então, assim que nos casamos, demos início ao processo de adoção. Tínhamos 42 e 47 anos à época e nenhum tempo a perder. O processo é demorado, exige dedicação e empenho. O fato de eu ser advogada me ajudou a acompanhar de perto, mas não favorece, não há como pular etapas. Como sempre digo, D’us realmente gosta de mim de uma forma especial e sempre me abençoa abundantemente. Não foi diferente com as crianças. Com o intervalo de 3 meses ganhamos o Beni e a Beatriz.

O BENI CHEGOU BASTANTE DEBILITADO…

Sim, tinha 6,5kg com 2 anos e 9 meses, sua saúde era muito fragil. Três dias após sua chegada, o levamos ao pronto atendimento e ele passou três dias na UTI. Foi um momento muito forte: naquele instante, ele tornou-se meu filho. D’us fez de tal forma que criou um vínculo instantâneo. Foram algumas idas e vindas ao hospital, mas como “entendi” meu filho, soube detectar seus problemas respiratórios para que pudéssemos procurar atendimento a tempo.

QUAL A DIFERENÇA DE IDADE ENTRE ELES?

São 2 anos e 364 dias (Risos). O Beni nasceu dia 22.06.2010 e a Bia, 21.06.2013. Para a adoção, tínhamos entrado para três crianças, um grupo de três irmãos. Ainda não tivemos coragem de sair da fila.

EU FALO MUITO SOBRE O PROCESSO DA CHEGADA DO BEBÊ, QUE NÃO É O MAR DE ROSAS QUE COSTUMAM PINTAR POR AÍ. É UM PROCESSO DE TRANSFORMAÇÃO DE MULHER EM MÃE. COMO FOI COM VOCÊ?

Foi uma loucura. É uma loucura. A vida com crianças é uma loucura. E viva a loucura, não é?! Sempre gostei muito de crianças, mas de repente surgir um filho que você não conhece, não sabe o histórico, não sabe o que dizer nas consultas médicas, sai correndo para comprar roupas cujo tamanho você desconhece, não sabe se ele prefere mamadeira ou copo, fraldas ou cuecas. É complicado. E então chega a Bia, um bebê recém-nascido precisando de você. E além de tudo, tem o ciúme do marido. Aliás, acho que está é a parte mais difícil. A gente precisa se desdobrar.

DIARIAMENTE, VOCÊ COMPARTILHA “UM AGRADECIMENTO DO DIA”. É INSPIRADOR, POIS NOS FAZ PARAR PARA PENSAR QUE A FELICIDADE ESTÁ NOS PEQUENOS DETALHES. COMO SURGIU A IDÉIA E O QUE ELA SIGNIFICA PARA VOCÊ?

A idéia foi copiada de uma prima distante, Deborah Dubner, que faz diariamente e tem um grupo onde ela compartilha. Eu adorei quando vi e decidi publicar os meus, pois diariamente eu agradeço a tudo que passei no dia, faço um balanço do que falei e ouvi e pondero muitas coisas. Achei incrível a ideia de compartilhar e poder mostrar a todos que sempre, por pior que possa parecer, se pararmos para pensar, há sempre algo maior e bom. Agradecer significa continuar a viver. ​

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