CRÔNICA: Patotas

Clara estava animada com aquele convite. Reencontraria a turma da faculdade após dez anos e finalmente conversaria sobre assuntos interessantes entre pessoas que pensavam como ela.
Nos últimos tempos, seus amigos passaram a ser os pais dos amigos de seus filhos, pessoas cujas afinidades resumiam-se a dissertar sobre a didática da professora, a linha pedagógica do colégio, a malignidade do glúten e a mãe do Fabio que não tinha vergonha na cara. Era isso: ela pensava em seus filhos vinte e quatro horas por dia e sua vida social também resumia-se a manifestos maternos.
Com a premissa de comemorar as bodas da formatura, finalmente seria despertada a Clara que levantava bandeiras, que devorava livros em cuja capa não constavam barrigas de nove meses, que discorria sobre assuntos culturais diversos e que cantarolava músicas da Adriana Calcanhoto ao invés da Partimpim. Sabia que, da antiga turma, poucos sequer estavam casados e certamente mantinham o ar reacionário de outrora, tempo em que ela também avaliava seriamente a possibilidade de mudar o mundo. Até conhecer o Rodrigo, casar, engravidar, fazer cursos de papinhas orgânicas e mudar o seu mundo.
No dia do encontro, Rodrigo ficara encarregado de cuidar das crianças e, ainda beliscando-se para checar a veracidade do momento, Clara bateu a porta de casa e saiu. Voltou horas depois, um pouco antes da meia-noite.
– Já?
– Sim. Acredita que hoje em dia tem trânsito neste horário?
– Como foi o encontro?
– Demais!
E discorreu sobre a emoção de rever antigos amigos, sobre como pouco haviam mudado. Discutiram sobre os tempos atuais, relacionaram Maquiavel com Simone de Beauvoir, Baudelaire com Valeska Popozuda e pré-sal com festa rave. Um pouco depois do início da animada conversa, chegou a Julia, pedindo desculpas pelo atraso e já dando as boas novas: estava grávida. Todos ficaram felizes, brindaram com seus copos de cachaça enquanto a gestante pedia uma água sem gás. Clara mal pôde conter a emoção. Chamou Julia para sentar a seu lado e iniciaram uma animada conversa sobre enjôos matinais, planos de parto e peças indispensáveis no enxoval. Como a conversa dos demais estava muito alta, elas logo mudaram-se para outra mesa, na ala de não fumantes. Ainda pediram um café descafeinado antes de despedirem-se do resto do pessoal que àquela altura, falava sobre sei lá o quê. Na saída, combinaram de encontrarem-se novamente. Tinham muitos assuntos em comum e de fato, Clara ainda precisava falar com ela sobre sobre linhas pedagógicas, a malignidade do glúten e, quem sabe, apresentá-la para as mães dos amigos de seus filhos.

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