ACONTECEU COMIGO: Mais perto que a China

Era um domingo de sol. Minha mãe estava grávida de muitos meses e, precisando de um tempo para descansar (eu demorei anos para entender que mães definitivamente precisam de um tempo para descansar) pediu a meu pai, um homem na faixa dos trinta e muitos anos, industrial respeitado, esportista incansável e com aptidão bastante incipiente na arte de cuidar dos filhos, que fizesse um programa comigo, então com sete anos e com minha irmã, dois anos mais nova.
Acho que o cansaço de minha mãe era tanto que, mesmo ciente dos riscos da situação, ela conseguiu relaxar numa época em que telefone celular era, no máximo, artefato do desenho dos Jetsons. Até aquele momento, nossa relação com meu pai resumia-se confortavelmente a beijos de boa-noite, almoços de domingo na casa da minha avó e – emoção das emoções – comemorar as vitórias do Brasil na Copa de oitenta e seis com a cabeça para fora do teto solar do Monza dele, rodando pelas ruas de São Paulo.
A idéia era passear no Parque do Ibirapuera. Delícia. Poderíamos comprar sorvete, alugar uma bicicleta ou brincar em frente ao lago.
Passeamos um pouco e, provavelmente no intuito de vencer o tédio, meu pai, sempre criativo, teve uma excelente idéia:
– Já sei! Vamos brincar de esconde-esconde!
(Pausa da menina de sete anos que cresceu e hoje tem dois filhos: brincar-de-esconde-esconde-no-parque-do-ibirapuera. Inspira. Expira. Prossigamos).
– Legal! Gritamos em coro.
– Primeiro você, Nurit. Mas não vai longe, hein?
O que é longe para uma criança se, cavando um buraco na areia, você podia chegar até a China? Andei por um tempo procurando um esconderijo menos óbvio que atrás de uma das cem mil árvores do parque, até que avistei uma lata de lixo enorme. Perfeito. Detrás dela, conseguia enxergar meu pai e minha irmã, que tinham o tamanho aproximado de duas formigas.
E eu os observava indo, vindo, indo, vindo, indo… Basicamente, eu tinha arrasado, seria a grande campeã da brincadeira.
Não sei quanto tempo se passou. Na minha opinião, o tempo de um recreio. Na do meu pai, que ele deve ter compartilhado na terapia mais tarde, umas três horas e meia.
Comecei a notar um tom de desespero nos passos dele. Provavelmente, pensei, leonino que é, não gosta de perder. Esperei mais um pouco. Mais um pouquinho ainda (também sou leonina). Quando estava quase dormindo e já com vontade de fazer xixi, resolvi aparecer.
– Vocês não são de nada, só comem marmelada!
Nós sabíamos exatamente o momento de ficarmos quietas e, além dos gritos, a cor vermelha do rosto do meu pai indicava que este era um deles. Obedecemos, demos as mãos e baixamos a cabeça.
– Pai, posso comprar um DipnLink?
Não, minha irmã definitivamente não sabia reconhecer estes momentos.
– Compra, vai, compra logo.
– Oba!
Então ela mergulhou o pirulito no açúcar, lambeu e, num descuido, deixou tudo cair no chão.
Berreiro. Chiliques. Entrem no carro. Silêncio. Vamos para casa.
No final da tarde, espiei por trás da porta do quarto dos meus pais. Minha mãe arrumava algumas roupas, enquanto meu pai, largado na cama, pálido, repetia “sozinho, não mais, hein?!”.
Mal sabia ele que, poucos anos mais tarde, passaria a endossar o grupo dos pais separados que passam, final de semana sim outro não, dias inteiros sozinho com os filhos. Mas daí é outra história. No plural.

PS.: Te amo, pai

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One thought on “ACONTECEU COMIGO: Mais perto que a China

  1. Ronald Masijah diz:

    Também te amo Nurit.
    Você descreveu perfeitamente o que ocorreu naquele dia.
    Na verdade um trauma que ainda não superei rsssss
    Beijo apaixonado do seu Papy

    Gostar

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