CRÔNICA: Fatima procura

Tudo o Fátima procurava era uma vida normal. Rotina. Arroz com feijão. Suas amigas estavam todas casadas e com filhos – alguns já adolescentes – e ela ainda buscava um amor para compartilhar a vida, os sonhos e o IPTU. Não era daquelas que convivem bem com a solidão.
Os amigos não entendiam como, após tantos anos, ela ainda não encontrara um par – “Exigente demais”, costumavam dizer – e resolveram ajudar.
Fátima, a exigente, tinha agora encontro marcado com Felipe, amigo de Joyce. Ele era alto, galanteador, míope e calvo. Nem bonito, nem feio. Trabalhava no ramo de transportes, seja lá o que isso quer dizer. Por ironia do destino teve um problema com o carro na noite agendada e ambos seguiram de taxi até o restaurante italiano do centro. Toalhas de mesas xadrez, vaso pequeno de centro com uma rosa solitária. Tradicional. Ela queria um linguini à milano, mas ele insistiu que dividissem um spaguethi ao sugo. Ele pagou a conta, abriu a porta do taxi (tentando redimir a carona frustrada) e ela nunca mais atendeu seus telefonemas.
“Talvez uma revolucionária dos bons costumes”.
Fátima, a exigente e revolucionária, tinha agora encontro com Carlos, amigo de Amanda. Loiro, de estatura mediana e barba por fazer. Lindo, de alto risco a corações fracos. Ou iniciantes. Não possuía carro, mas uma moto potente. Adepto da teoria “mulher que goza divide o motel”, fazia o tipo cafajeste. Ofereceu o motel mas Fátima, em sua garupa, recusou. Comeram sanduíche no bar da esquina mais próxima e Carlos falou bastante sobre… Carlos. Despediram-se e ela nunca ligou de volta para o número que ele anotou, com caneta Bic, em seu decote.
“Ela é sofisticada, isso é certo”.
Fátima, a exigente, revolucionária e sofisticada, tinha agora encontro com Francisco, amigo de Fernanda. Gel no cabelo, calça skinny e – ela jurava – fazia biquinho para pronunciar as vogais fechadas. Levou-a até um restaurante sofisticado em seu carro cheirando a couro recém batido. Pediram Chardonay para harmonizar com foie gras au berre. O maitre o chamava de senhor Francis e, pela simpatia de sempre, ele deixou uma gorjeta gorda, que ele pediu a Fátima que dividissem ‘meio a meio’, junto com a conta do restaurante. Deixou-a em casa e pediu seu telefone. “Mas qual a operadora?”. Ele nunca mais retornou, talvez por não estar cadastrado na promoção Tim para Tim.
“Ela é mesquinha, precisa ter um parceiro generoso”.
Fátima, a exigente, revolucionária, sofisticada e mesquinha, tinha agora encontro com Elizeo, amigo de Carola. Pele alva, voz alva e papo alvo, cumprimentou-a entregando flores. “A senhorita está bem?”, “Sim e você”, “Também, com a graça do Senhor”. Rumaram à casa do Senhor e passaram a noite em sua companhia. Fátima foi à confissão e Elizeo estranhou a demora e a lista que ela trouxe na saída. “Pra não esquecer”. O gentil rapaz a deixou em casa, solicitou o telefone “por obséquio” e a convidou para o baile da paróquia que seria no final de semana seguinte. Fátima agradeceu, tomou um porre e esqueceu onde deixou a lista.
“Cética, busca racionalização em tudo”.
Fátima, a exigente, revolucionária, sofisticada, mesquinha e cética, recusou delicadamente as sugestões dos encontros seguintes organizados por amigos.
Dizem que anda retornando as ligações de Pedro, tatuador de renome, um pouco acima do peso e com as contas em dia.
Ainda é cedo para saber se compartilharão a vida e dividirão o arroz com feijão. Nunca é fácil prever. Nem com quem esconde todos os seus adjetivos.

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