CRÔNICA: Uma sociedade hipatética

Fiquei numa dúvida enorme se colocaria este texto na coluna Crônicas ou na Aconteceu Comigo…

A confraria era exclusiva e os encontros ocorriam sempre que o convite – rococó – indicava as iniciais RSVP. Algum chateau sempre muito bem adornados abrigava estes guardiões dos bons costumes da alta classe. Eram nobres, em sua maioria mulheres, muito refinados e diferenciados, que sempre faziam questão de manter conversas interessantíssimas para provar que mereciam seu lugar ao sol. Ou ao lustre Baccarat.
Naquela noite, Gigi faria uma aparição pública e todas estavam extasiadas com a hipótese de uma selfie com hashtag. Imaginem só, tantas seguidoras, um sucesso tamanho, a arte de criar um look do dia e Gigi dispusera seu precioso tempo para comparecer à confraria. Interessante que a organização daquele evento dispusera espaço para um pequeno sarau intelectual onde apresentariam-se escritores, músicos e artistas de forma geral. Era quase uma inclusão social. De fato, eles sentiam-se muito agraciados com a oportunidade de criar para tamanho público consumidor. Prova disso foi o quarteto de cordas que distribuiu seu CD como brinde, os escritores tentando a todo custo oferecer seu livro para o convidado mais prestigiado e os pintores, esmerando-se em retratos das lindas mulheres, numa desleal concorrência com as selfies. Fez muito sucesso uma jovem que, sempre mantendo um sorriso no rosto, teve sua obra comprada, imaginem só, por uma senhora que fez questão de pagar tão contagiante era seu semblante.
Então, Gigi chegou.
As mulheres presentes enlouqueceram, tentando tirar proveito de uma autoridade como ela. A pequena palestra, bem informal e blasé, regada a espumante brut, foi um momento único na vida de muitas convidadas. Era preciso absorver aquele conhecimento. Muitas acreditavam na ilusão de uma fórmula mágica para ‘chegarem lá’, mas Gigi deixou claro que conquistar aquela aura exigia um dom quase transcendental, completamente intuitivo. Foi embora rapidamente após uma breve sessão de fotos (o fotógrafo também presentearia as convidadas com a imagem revelada), deixando apenas um rastro de aroma francês no ambiente.
A noite acabou em sucesso absoluto. As convidadas partiram com um enorme sorriso no rosto e alguns brindes – CD, livros, retratos – e com a garantia de uma hashtag inesquecível, o que não tinha preço. Amanhã retornariam à rotina, mas inspiradas como nunca.
Os integrantes do sarau também estavam felizes. A sociedade enfim reconhecia seu valor e estavam quase chegando ao ponto máximo de sua carreira. Mais um pouco e finalmente deixariam o mercado de brindes promocionais.

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