ACONTECEU COMIGO: Nurit Bond

Este texto é antigo, escrito quando eu tinha somente uma filha e o caos do trânsito ainda não havia invadido Porto Alegre. Mas como recordar é viver…

Após uma longa temporada em São Paulo, lá fui eu reempacotar a casa. Sim, viajar com criança requer praticamente uma transportadora, mas enquanto a Granero inviabilizar a viagem, eu mesma faço o trabalho. Dois volumes explodindo e uma atendente de check-in queridíssima (que não cobrou excesso de bagagem) depois, entro no avião, rumo aos pampas e ao marido, de quem já morria de saudades.
Pequena fofésima no avião, sem piscar os olhos e – ufa – chegamos. Marido pega a Taly enquanto eu, as malas. Roda a esteira, roda, roda, roda e nada do segundo volume chegar. Um olhar mais atento avistou uma bagagem bastante similar, mas que parecia estranhamente… leve. Abro e encontro fraldas, biquinis e roupas sujas. Socorro. Não era a minha.
Corro para a fila de taxi, pois pela fralda, já sabia que era da mulher que também estava com um bebê durante o vôo. Descrevo-a para o taxista que diz:
– Ih dona, ela acabou de sair
– Qual era o número do taxi?
– 2898
– Então vamos ligar par o taxista!
Caixa postal. A esta altura, já havia percebido que Murphy aparecera para uma visita.
De volta ao balcão da Gol, tantamos contatar a madame distraída. Adivinhe: caixa postal. Bom, então abre-se a mala da dita cuja, a procura de algum documento que contenha outro telefone.
Neste momento, já via meus carregadores, documentos de trabalho, sapatinhos da pequena, brinquedos novos, minha bota linda-de-morrer, pó compacto novo da MAC, enfim, tudo o que era MEU, habitando um passado remoto. Até que – ops – um telefone diferente. E de Mato Grosso do Sul, a filial brasileira dos pampas.
Toca, toca e atende um homem, marido de Daniela – a madame distraída – que avisa: “Xi, ela foi para a rodoviária e pegará um ônibus às 18:00h para Serafina Correa”.
Ooooi?? Ela vai viajar, não percebeu que a mala está trocada e ainda não teve a capacidade de ligar o celular?
– São 17:30h. Vamos correr para a rodoviária tentar encontrá-la
– Mas está chovendo e é horário de pico
– Estamos em Porto Alegre, quem sabe?!
– Ai, que saudades da minha mala. Ok, vamos.
Numa operação 007, corre-se com as malas, elevador, Taly na cadeirinha, bagagem no porta-malas e rumo à rodoviária. Em alguns momentos, gosto muito de morar por aqui e este foi um deles: às 17:55h estávamos na rodoviária. Corro pelos boxes, de salto alto, me sentindo a própria Nurit Bond, mas p-u-t-a- da vida. Bento Gonçalves, Passo Fundo, Caxias do Sul… SERAFINA CORREA! E madame distraída.
Pausa para respirar.
– Você está com a minha mala!
– (cara de espanto) Acabei de perceber que não era minha (tóim). Mas como você conseguiu me achar?
– Ah minha querida, quando se trata de mulheres, botas e maquiagem nova, não se brinca!

Ok. não foi bem esta a resposta, mas para dar mais graça a um final de tarde que acabou com mau-humor e chapinha destruida pela chuva, vale a licença poética, vai?

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