INSPIRAÇÃO: “Ser gay não é um estereótipo específico, é uma miríade de possibilidades de viver de acordo com o que somos”

(Por: Nurit Masijah Gil)

Educado dentro de uma religião tradicional, desde cedo sua mãe mostrava que o mundo era maior. Judeu, Fernando Sendyk foi estudar em um colégio de padres, o que é uma quebra enorme para quem vive dentro de uma comunidade fechada. O ambiente, no entanto, não deixava de lhe apontar o quanto ele era diferente: não seguia a religião do colégio, era mais baixinho que os colegas e uma outra sensação – que ainda não conseguia denominar – de não fazer parte daquele mundo, por maior que ele parecesse até o momento.

(Fonte: arquivo pessoal)

(Fonte: arquivo pessoal)

Ainda no colegial e já com consultório pronto o aguardando na clínica odontológica do pai, optou pela área de biológicas a fim de seguir fielmente o plano inicial. Até sua irmã ter uma dor de dente no meio das férias. A tal pedra capaz de desviar caminhos está geralmente nas bifurcações mais banais, basta prestar atenção. Fernando, o próximo dentista da família, seguiu para ajudar o pai na consulta e, no momento em que sua irmã abriu a boca, ele teve certeza de que o futuro começava a mudar. No retorno às aulas migrou imediatamente para a área de humanas, respeitando a fascinação que sempre teve por casas. Hoje, olhando para trás, entende que esta mudança foi a forma que ele encontrou de realizar sua quebra.

Entrou na faculdade de arquitetura e, com a namorada Renata – com quem já fazia planos de casamento – participou de um grupo de estudos a Barcelona, cidade que o fascinaria. Ali, o mundo lhe pareceu enorme e ao enxergar pela primeira vez homens bem vestidos andando de mãos dadas sem causar qualquer estranhamento soube, ainda sem sua ficha ter caído completamente, que haveria uma avalanche pela frente. Na volta, foi a mãe de Renata quem sugeriu que ele frequentasse a terapia. Tamanha era a importância de entender aquele momento, que Fernando resolveu utilizar todo o seu salário e seguir o conselho.

E entendeu: acabou o namoro, terminou a faculdade e viajou para Barcelona. Chegara a hora de escrever seu próprio roteiro.

Era 1989 e ser gay era um estereótipo depreciado e marginalizado no Brasil. Mas na Europa – e especialmente na cidade catalã – era, além de relacionar-se naturalmente com pessoas do mesmo sexo, descobrir um ambiente em que ele não sentiria-se estranho. Recém chegado, aproximou-se de um grupo de arquitetos brasileiros gays e em poucas semanas, conheceu um menino com quem passou a noite que o faria entender quem era e começar a mudar sua história.

“Hoje é difícil pensar nisso porque todos têm parentes e/ou amigos gays vivendo a mesma vida de todo mundo, com suas agruras e alegrias. Vemos gays por toda parte e de todas as formas. Não é um modelo específico, é uma miríade de possibilidades de como viver de acordo com o que somos sem ter que estar encaixado em um estereótipo específico”.

Alguns meses depois, conheceu o espanhol Andres, seu primeiro e grande amor e o trajeto pré-determinado, para sua sorte, ficou definitivamente para trás.

(Em Barcelona. Fernando, usando óculos de grau redondo e Andres, deitado. Fonte: arquivo pessoal)

(Em Barcelona. Fernando, de malha listrada e Andres, deitado. Fonte: arquivo pessoal)

No Brasil, apesar de seus amigos também comemoravam a descoberta, foi apenas quando decidiu retornar, quatro anos depois, já com o namoro em fase ruim e ambição profissional que previa conseguir consolidar na terra natal, que precisou enfrentar os pais após contrair uma DST e precisar utilizar o plano de saúde da família. Por mais aberta que tivesse sido a educação de Fernando, eles ficaram impávidos e tocaram a vida sem jamais voltar ao assunto. E ele respeitou.

Hoje, Fernando acredita que a sociedade aceita melhor as diferenças, mas é no meio dessa aceitação que encontram-se conceitos viciados e não é incomum ouvir de gente esclarecida, em cidades cosmopolitas, coisas como “tudo bem ser gay, mas prefiro que meu filho não seja”.

“É fundamental lembrar que estou aqui falando de definição sexual, mas o mesmo sistema viciado de conceitos não elaborados, impera – muitas vezes de forma mais forte e cruel – quando se trata de outras diferenças e especificidades: raciais, religiosas e ideológicas”.

Fernando é gay, arquiteto, judeu, paulistano e adepto de um estilo de vida saudável. E você, está vivendo de acordo com o que realmente é?

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s