ACONTECEU COMIGO: Mãe, obrigada pela parte difícil

Por você ter tomado as minhas dores, amado incondicionalmente e ser dona de doçura descomunal, eu cresci com porto seguro. Ser mãe e, por tantas vezes, pai, tornaram-na meu mundo.
Mas hoje eu sei: amar um filho é fácil. Tomar as dores, lembrar do protetor, esquecer o mundo enquanto amassa e beija. E por mais que a rotina fique maluca e que abdiquemos de uma porção enorme da vida que conhecíamos, a gente instintivamente assume na maternidade nosso papel mais especial. Por isso, mãe, hoje te agradeço por motivos diferentes.
Obrigada pela parte difícil.
Quando você deixou claro, para que eu voltasse a falar com você, que meu pai tinha saído de casa porque quis, meu castelo desmoronou. E já que era para viver fora dele, logo percebi que sorte a minha ter a sua companhia. A verdade só nos fez próximas. E então você voltou para a faculdade à noite enquanto três filhas pequenas dormiam e deu conta de uma casa cheia sozinha. Eu podia não ter um castelo, mas tinha uma rainha.
Na primeira vez em que você chorou na minha frente, meu mundo ruiu. Nas seguintes, entendi que as pessoas morrem, que os planos podem sair completamente diferentes do planejado e que você, por mais absurdo que pudesse parecer até aquele momento, era humana. Se nunca tivesse mostrado que a capa de super-heroína era adorno do faz de conta, eu talvez não suportasse as falhas da mãe que eu sou e das quais tento rir. Tento, não é fácil.
Quando a vida nos pregou uma peça enorme e tivemos que encarar como seriamos dali para frente, cada uma buscou as suas saídas. Juntas, mas completamente sozinhas. E ali eu entendi que as pedras do meu caminho são apenas minhas e que, por mais que você me dê sua mão – e você sempre dá – sou eu quem precisarei aprender a saltar sobre elas.
Mais tarde você mandou eu assumir minhas escolhas, parar de reclamar ou choramingar e eu cresci dez anos em quinze segundos. De nada adiantava eu bradar minha rebeldia e pedir socorro assim que sentisse saudade do mundo cor-de-rosa. Doze anos atrás eu assumi minha vida em outro estado sem referências, sem grana e sem casa de mãe para voltar correndo porque você recusou-se a passar as mãos na minha cabeça. Eu consegui porque você me ajudou.
Você sempre diz que somos moldados pelas vivências e nossas histórias, mãe, são absolutamente diferentes. Mas sempre entrelaçadas. Obrigada por ter falhado, obrigada por ter chorado, obrigado por ter feito nossa vida no tom mais incrível de rosa, mas ter me deixado ver, atraves da sua janela, que o mundo é imperfeito. Amar é fácil. Difícil é deixar um filho encarar sua própria história.

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