ACONTECEU COMIGO: Sobre brincar de tinta durante a tarde de uma segunda-feira

Talvez porque seu plano de conciliar tarefas tenha ido por água abaixo ou porque seu filho tenha sofrido com uma dúzia de viroses em um mês no berçário. Pode ser porque você não tenha com quem contar ou simplesmente porque quis. O fato é que você parou de trabalhar para ser mãe em tempo integral.
E após ter sido educada para ser profissional de sucesso, vendo os olhos de seus pais brilharem com diplomas, mestrados e empregos em multinacionais, anuncia a nova fase de vida quase cabisbaixa. Invariavelmente, com a boa nova virá uma chuva torrencial de críticas, desde um simples “mas por que?” até o categórico “você está jogando sua carreira pelo ralo”.
Numa sociedade em que a mulher foi educada para competir braço de ferro com o sexo oposto e que deveria orgulhar-se das conquistas pós queima de soutiens, optar por brincar de tinta no jardim aos trinta e tantos anos no meio de uma tarde de segunda-feira, carimba em nossa testa um estigma.
Em poucas semanas, você resolverá (tentar) abstrair dos olhares enviesados e, após bater cartão às três da manhã, trocar fraldas no horário em que desenvolvia relatórios, fazer papinha quando costumava visitar clientes, brincar de homem aranha quando fazia treinamentos de vendas, vai cansada – céus, cansa! – compartilhar num momento de desabafo sua exaustão e a resposta será mais ou menos assim: “imagine então a Maria Hipotética Margarida, que trabalha o dia inteiro, tem três filhos e está prestes a ganhar o troféu de mulher mais incrível do século?”. Pois é, imagine.
Mulheres que brincam de tinta no meio da tarde de segunda-feira, a realidade é a seguinte:
Você será incrivelmente normal. Em alguns momentos, acreditará que não poderia ter feito escolha melhor. Em outros, sonhará que talvez pudesse ter conseguido conciliar a carreira com a maternidade. Às vezes, amará brincar no meio da tarde e em outras tantas, sentirá falta de relacionar-se com adultos que não falem somente sobre filhos. Você vai adorar falar somente sobre filhos. Talvez olhará no espelho e não reconhecerá a mulher sem rímel usando moletom, invejando a vizinha que tem oportunidade de usar vestido de lurex dourado e salto agulha sem Dorflex. Provavelmente, em algum momento, você sentirá ânsia de retomar o trabalho. Seu currículo terá oitenta e sete páginas novas, nenhuma delas aplicável à tal multinacional. Mas abrirá novas portas.
E terá percebido, no final das contas, que seu filho não será necessariamente mais feliz ou mais triste, mais tímido ou mais atirado, mais mimado ou melhor educado. Será simplesmente seu filho, aconchegado numa casa cheia de amor, assim como quem tem mãe que trabalha fora ou mãe que faz tudo do avesso. Não é um ato revolucionário, uma escolha sem arrependimentos e principalmente, estigma nenhum. É um escolha.
Esqueçam o braço de ferro, os olhares enviesados e a Maria Hipotética Margarida. É bom para a sua família? Então acabou, vai pintar.

(Minha propriedade para tratar do assunto: formada em publicidade, com MBA em Marketing de serviços e currículo de multinacionais, abandonei a carreira após o nascimento da minha primeira filha. Pintei muito durante tardes de segunda-feira. Hoje, com dois filhos, já abri duas empresas, fechei uma, trabalho em home-zona-office, escrevi um livro e sigo abrindo portas. Às vezes uso salto agulha, mas hoje em dia, sempre com Dorflex)

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