ACONTECEU COMIGO: Falando com as crianças sobre morte

Tenho – acho que é absolutamente normal – uma dificuldade enorme em lidar com a morte. E desde que virei mãe, ela é elevada à milésima potência quando preciso falar sobre o assunto com meus filhos.
Vivemos até hoje algumas situações com bichos de estimação: dois peixes, um porquinho-da-índia e um coelho. Os peixes, segundo a mirabolante fábula que inventamos, deixaram uma carta contando que gostariam de morar no lago. O porquinho conheceu uma porquinha e formaram uma linda família na floresta. O coelho… Bem, eles viram. E sofreram. Sofremos, na verdade.
Acredito na importância das crianças aprenderem a lidar com perda, mas este assunto precisa ser tratado com delicadeza. Por isso, a dica da coluna hoje é de um livro sensível, que fala de morte, luto e saudade, quando um menino perde um grande amigo, o Elvis, seu cãozinho.
Li “Por que o Elvis não latiu”, de Robertson Frizero, para meus filhos e eles, atentos até a última página, fizeram perguntas, associaram com a morte do nosso coelho e passaram a entender a perda com mais tranquilidade.

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O livro, que nos marcou, fez sucesso e ganhou prêmios importantes. Falar sobre morte é mesmo um assunto que aflige a maioria de nós.

E para esta dica ficar ainda mais sensível, fomos falar com o Robertson, entender um pouco sobre sua trajetória e a história do Elvis:

Robertson Frizero“POR QUE O ELVIS NÃO LATIU” TRAZ UMA TEMÁTICA DELICADA. CONFESSO QUE PARA MIM FOI UM ALÍVIO TRATAR DA MORTE COM MEUS FILHOS DESTA MANEIRA MAIS LÚDICA E LEVE, ATRAVÉS DO LIVRO. COMO SURGIU A IDÉIA DE ABORDAR ESTE TEMA?

A ideia do tema surgiu ao observar a história de uma afilhada minha: os avós dela tinham um cãozinho já meio velhinho, que minha afilhada, com uns cinco anos à época, adorava; o cãozinho veio a falecer e, com medo de que a menina ficasse muito triste, os avós disseram que o cachorro tinha ido visitar o sítio de um parente, na esperança de que a resposta fosse bastar e ela eventualmente esquecesse do assunto; um dia, quando foi visitar o sítio do tal parente, a primeira pergunta dela foi a respeito do cãozinho, e mais uma vez mentiram para ela, dizendo que o animal tinha ido passear no sítio de outro tio-avô… Tempos depois, a mesma história: visitaram o outro tio-avô e a menina perguntou pelo cachorro. Quando lhe disseram que o cachorro tinha ido passear em outro sítio, ela começou a chorar, dizendo que o cãozinho estava fugindo porque não gostava mais dela, já que sempre tinha acabado de partir assim que ela chegava nos lugares onde ele supostamente estaria… O sofrimento dela levou-me a pensar sobre essas mentiras caridosas que pais e adultos contam às crianças com medo de que elas não tenham condições de lidar com as emoções. Na verdade, observo é que nós adultos temos medos e tabus em relação a alguns temas como a morte, e por não sabermos como lidar com eles, transferimos para as crianças essa dificuldade. As crianças acabam encontrando um jeito de lidar com essas situações e foi com essa intenção que criei a história do menino que perde seu cãozinho e vai descobrindo aos poucos que a versão dos adultos não é a verdade sobre o que aconteceu.

E A FORMA DA ABORDAGEM: VEIO DA SUA MEMÓRIA DE INFÂNCIA, DA EXPERIÊNCIA COMO PAI OU SEGUE ALGUMA LINHA PEDAGÓGICA?

A abordagem que dei ao tema veio das minhas reflexões como pai e também de certa vivência pessoal como criança que teve de lidar com algumas dessas “mentirinhas” que os adultos contam para proteger os pequenos. Não por acaso, as “mentiras caridosas” e “verdades inventadas” são tema do meu primeiro romance também, o recém-lançado “Longe das Aldeias”. Busquei imaginar como eu trataria o tema da morte com meu filho – primeiro da forma usual, contando uma mentira sobre a partida do animal, e depois como eu imaginava que poderia ser conduzida a conversa. Felizmente, a abordagem que escolhi tem sido elogiada por psicólogos e pedagogos; mais que isso, sinto-me realizado por ver que muitos pais e mães procuram-me para relatar como o livro deu a eles ferramentas para lidar com o luto, não só pela perda de animais de estimação – que costuma ser a primeira vivida pelas crianças -, mas também em situações de morte na família ou no círculo de amizades.

O LIVRO TEVE UM RETORNO SUPER INTERESSANTE. VOCÊ PODE FALAR UM POUCO SOBRE O ASSUNTO, BEM COMO DOS PRÊMIOS RECEBIDOS?

“Por que o Elvis não latiu?” é um livro que ainda me surpreende muito. Ele foi uma aposta despretensiosa da editora, que adotou o livro como um primeiro “teste” para a sua linha infantil. Lançou-se o livro sem maior divulgação e alguns meses depois fomos surpreendidos com o Prêmio Crescer, uma premiação que anualmente aquela revista especializada em Educação Infantil e Cuidados com a Criança oferece para os trinta melhores títulos infantis do ano. A surpresa foi ainda maior ao descobrirmos que o livro ganhava também o prêmio de favorito dos leitores da revista numa votação feita pela internet – de alguma forma o livro havia sido descoberto pelos leitores de outros estados e recebido a maioria dos votos. O livro foi divulgado em uma edição especial da revista e ganhou notoriedade. Depois, o “Por que o Elvis não latiu?” foi indicado como um dos três finalistas ao Prêmio Açorianos de Literatura, aqui no Rio Grande do Sul. Um feito, para um livro que nasceu sem maiores pretensões, inaugurando a linha editorial de uma editora ainda muito jovem à época.
O livro pertence agora à simpática editora gaúcha Besouro Box, após uma fusão na qual ela absorveu o catálogo da antiga 8INVERSO. Ainda ser adquirido na livraria Sapere Aude! Livros [Rua Lopo Gonçalves, 33 – Cidade Baixa – Porto Alegre/RS – info@sapereaudelivros.com.br], na loja física ou virtual, ou em outras grandes livrarias virtuais na internet. Uma curiosidade: o Prêmio Crescer ganho pelo “Por que o Elvis não latiu?” está até hoje exposto na vitrine da Sapere Aude! Livros, livraria que é como uma segunda casa para mim e apóia todas as minhas atividades literárias. Tenho orgulho de dizer que sou uma espécie de “autor residente” daquela casa, onde mantemos uma atividade que me é muito querida: as reuniões mensais de nosso Clube de Leitores, nas quais debatemos um livro escolhido para cada mês. Que escritor pode querer mais da vida que ter uma livraria que lhe acolhe e abraça?

Robertson Frizero
Sua trajetória literária começou no Rio Grande do Sul. É carioca e radicado em Porto Alegre desde 1999. Escreve desde os treze anos de idade, mas profissionalmente a literatura surgiu após cursar o Mestrado em Teoria da Literatura na PUCRS. O curso deu-lhe ferramentas e abriu diversas portas – apresentando as oficinas literárias de Luiz Antônio de Assis Brasil, em prosa, e Graça Nunes, em dramaturgia, dois mestres que muito influenciaram sua escrita. O mestrado levou-o a ser contratado como tradutor pela editora 8INVERSO, na qual publicaria depois o “Por que o Elvis não latiu?” e onde trabalhou por anos como Gestor Cultural. Hoje, oferece oficinas literárias para quem quer se iniciar na escrita criativa. Segundo Robertson, esta trajetória lhe ofereceu ferramentas e coragem para tentar vôos maiores, e em 2015 lançou seu primeiro romance, “Longe das Aldeias”, pela gaúcha Terceiro Selo, com ótima recepção da crítica até o momento.

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