CRÔNICA: Veio a calcinha lhe fazer mal

Dona Filó agora tinha certeza. Uma calcinha preta caída em seu varal da janela confirmara suas suspeitas: a vizinha de cima só poderia ser profissional do sexo. Fazia meses que recebia visitas diversas em seu apartamento, de homens sozinhos até – que horror – casais. E agora a calcinha. Quem usa fio dental em plena quarta-feira? Só podia ser. Absurdo. O prédio azul da rua de paralelepípedos no coração da cidade sempre fora residência de pessoas íntegras. Quem era ela para destruir a reputação da vizinhança? E outra: se transformara seu apartamento num bordel, ninguém mais poderia impedir dona Filó de ter onze gatos, como sempre sonhara.

Marcelo agora tinha certeza. A senhora maluca do andar de cima descumprira o que prometera em assembléia de condomínio: estava criando gatos. O fedor de uréia que vinha pela janela confirmava as suspeitas. Um mau cheiro horroroso que deixara todo apartamento recém decorado sem local habitável. Estava gastando todas as suas economias em spray perfumado e isso só aumentava sua necessidade de uma nova fonte de renda. Começou a plantar maconha no meio da sala.

Alessandra e Julio agora tinham certeza. O maconheiro do andar de cima estava passando dos limites, com a marofa ininterrupta brotando por todos os cantos. Não duvidariam se estivesse até traficando. Mais uns dias e um bando de pessoas da mesma laia estariam entrando no prédio para comprar drogas, arriscando a segurança de todos os vizinhos. Quanta irresponsabilidade. Se não tivessem medo de retaliação, chamariam a polícia. Mas agora iriam jogar de vez para os ares a política da boa vizinhança e abririam o próprio negócio: era hora de transformar o apartamento em creche.

Seu Manuel do primeiro andar agora tinha certeza: ou a vizinha de cima tinha a fertilidade de uma coelha ou estavam abrigando crianças alheias no apartamento. Foram cinquenta anos de trabalho suado, sonhando com a aposentadoria e agora isso. Não conseguia paz para dormir, assistir a novela da tarde ou comer seu pão com geléia de jabuticaba. Escutava choros e gritos o dia inteiro. Que inferno. Como não poderia ficar assim, convocou uma reunião extraordinaria de condomínio.

No dia combinado, todos os vizinhos enfurecidos com a casa alheia – sem prestar atenção aos seus respectivos metros quadrados – levantavam a mão brigando pelo direito à palavra. Seu Manoel concedeu para a linda loira, vizinha nova e moradora da cobertura:

– Gente, antes de mais nada, prazer, meu nome é Lucy. Estou de mudança marcada para Paris, onde pretendo terminar meu doutorado e por isso, coloquei o apartamento à venda. Para a minha alegria, muitos interessados tem visitado e logo devo ter novidades. Desculpem o incômodo.

Virou de costas feliz e segura. Aquela nova calcinha fio dental não marcava nada. Era nova na vizinhança e não queria dar motivos para que falassem dela.

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2 thoughts on “CRÔNICA: Veio a calcinha lhe fazer mal

  1. Rony diz:

    Excelente. PARABÉNS.
    De verdade estou agora de pé aplaudindo este texto espetacular.
    Até me lembra um conto muito antigo, com certeza não é do seu tempo, do comediante José de Vasconcelos, sobre o Cadilac Rabo de Peixe.

    Gostar

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