ACONTECEU COMIGO: Quem tem medo do tabu mau?

Hoje perguntei para a minha filha se algum dos amigos da classe dela tem os pais separados. Estávamos falando sobre diferenças e precisava da resposta para fazer valer meu argumento.

– Acho que sim, mãe.

Acho. Melhor dizendo: não faz a menor idéia.

Quando meus pais separaram-se eu tinha oito anos, dois a mais que ela. Não tinha medo de monstro, de fantasma ou bruxa, mas tinha pavor de pais que deixavam de viver juntos. De alguma forma, mesmo sutil, acho que qualquer criança sabe quando algo não vai bem em casa. E para deixar claro meu ponto, comentei com minha mãe alguns meses antes da fatídica notícia o que aconteceria caso este caos pairasse sobre nossa família “Mãe, eu morreria”.

Adianto o final da história: cá estou, vivinha da silva.

Era década de oitenta e casos de separação pouco existiam naqueles anos. Escutei a notícia, papai e mamãe ainda amam vocês, não chora, o mundo não acabou, nada vai mudar, etecetera. Se hoje dou risada, pois nossa casa de quatro mulheres acabou assim ficando divertida, liberal e cheia de intimidade, na ocasião, meu mundo acabou. Vivendo numa comunidade pequena, mesmo dentro da megalópole que é São Paulo, dois dias depois o colégio inteiro em que estudávamos sabia da nossa pequena catástrofe pessoal:
– Por que seu pai saiu de casa?
– Porque ele e minha mãe não se gostam mais, apesar de ainda nos amarem. Talvez ele volte.

Resposta treinada em frente ao espelho quando a que eu realmente gostaria de dar era “Que merda, não faço a menor idéia. Eu o amo tanto, mas ele preferiu ter outra vida”.

A tristeza com a separação veio junto com o tabu, que hoje acho que era o que tanto temia. Meu pai não morava em casa, diferente dos pais de todas as minhas amigas. Eu e minhas irmãs fomos motivo de curiosidade, piedade, até que na década seguinte viramos absolutamente comuns. Afinal, quem tinha pais casados na década de noventa?

Minha filha nunca perguntou sobre separação – mesmo tendo todos os avós separados – e jamais demonstrou medo a respeito deste assunto. Tem pavor de monstro, fantasma e escuro. Claro que ficaria tristíssima se ocorresse, só que apesar dela não ter motivo algum que a faça suspeitar, acredito que sua resposta indiferente não trata apenas da consciência matemática de possibilidades reais. Existe ali a forma como ela percebe as diferenças no mundo e como alguns tabus não fazem parte dele.

Tudo bem ser diferente. Se no universo dela algumas pessoas são separadas, outras casam com pessoas do mesmo sexo, alguns amigos tem características que eles aprendem a respeitar, que diferença, de fato, faz?

Sorri e mudei de assunto.

O ponto que eu queria provar, no final das contas, não precisava de prova nenhuma.

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