ACONTECEU COMIGO: Eu não te pertenço (texto publicado no Blog da Crescer)

Como fica o casamento após a chegada dos filhos?

Com este tema, fui convidada pelo blog da Revista Crescer a escrever um texto. Além da minha experiência, conversei com muitas mulheres, ri demais e o resultado está aqui. A história é pessoal, mas de certa forma, é a de todas nós:

“No dia do nosso casamento, eu disse que pertencia a você, assim como você pertencia a mim. Em casamentos judaicos, essa é a prédica no momento da troca de alianças e, naquele instante, eu olhei nos seus olhos. Ali, eu te escolhi.

Seria perfeito, se não houvesse um porém: você não pertence a mim e, da mesma forma, eu não pertenço a você. Eu te escolhi.

Quando o vi pela a primeira vez, meu coração afundou, minha perna tremeu e eu te escolhi. Naquela noite em que não ouvimos os fogos de artifício, quando chorei incontáveis semanas por sua ausência, quando estava com outra pessoa, mas pensando em você, eu te escolhi. E quando sem querer perder mais tempo, liguei te convidando para sair, você lembra, né? Eu te escolhi.

Eu não tinha vinte anos, assistia Dawson’s Creek, tinha pijama com cara de urso e uma insegurança do tamanho do mundo. E você me abraçou. Por isso, eu te escolhi. Você rodou o mundo, dormiu no chão na Índia e mochilou até o Himalaia. Eu queria ter sido hippie, mas nunca fui. Por admiração, te escolhi.

Com você, mudei de estado, me arrependi e chorei trezentos e sessenta e cinco dias seguidos. Você me compreendeu em todos eles e de novo, eu te escolhi.

Sei que prefere ficar em casa, ficção científica, Frank Herbert e Bucowski. Eu prefiro sair, drama, Antônio Prata e Luis Fernando Veríssimo. O que seria do amarelo se todos gostassem de vermelho? Te escolhi.

Mas não foram poucos os momentos em que eu senti vontade de jogar a cadeira pesada da sala em sua direção. A sua bagunça, sua mania irritante de diante dos meus erros repetir “eu te disse” e especialmente, nas mudanças que vieram quando decidimos aumentar a família.

Eu, que já era uma mulher bem resolvida, dona da minha rotina, usava soutiens rendados e achava que, após ler uma dezena de livros sobre gestação e filhos, estava pronta para o que estava por vir. Comprei o travesseiro anti-refluxo, o carrinho perfeito e um berço lindo. Estudei a posição ideal para nossa filha dormir, para a hora da cólica e para amamentar. Enfeitei o quarto, montei o kit higiene e lavei as roupinhas de recém-nascido. Até que, para minha surpresa, apesar de ter deixado tudo pronto conforme os manuais da mãe perfeita, fiquei frente a frente com o caos.

Descobri que bebês da vida real não dormem simplesmente ao deitarem no colchão, que o choro passou a ser muito mais angustiante quando era eu quem tinha que descobrir a causa, aprendi sem dicionário o significado de puerpério e baby-blues, passei a comemorar efusivamente qualquer meia hora que conseguisse para fazer a mão e, enquanto ainda vibrava por conseguir pentear os cabelos antes do meio dia e por três horas ininterruptas de sono à noite, você lançou um olhar quarenta e três. E retribuir era tudo o que eu não queria. Marte x Venus. Testosterona x Estrogênio. Empolgação x Exaustão. Mas o fato é que, com o fim da quarentena, e apesar de ter apenas uma lembrança remota do que era libido, tirei a lingerie bege e o protetor de seios – mesmo com o risco de virar um chafariz – e retomei a vida a dois.

Com a chegada dos filhos, nosso casamento sofreu um baque que era difícil prever. Você simplesmente não cuidava da rotina com um bebê da mesma forma supostamente perfeita como eu conseguia, raramente entendia meu cansaço, meu mau-humor ou como minha cabeça também estava cheia de novos dilemas. Com um sono enlouquecedor, eu queria apenas abraçar nossa pequena e dormir de rosto colado com ela por oitenta e cinco horas seguidas – ou quarenta e cinco minutos que fossem – ao invés de resgatar a cinta liga e os motivos pelos quais eu costumava te mandar quinze SMS dizendo apenas “te amo”. Fora que, no lugar de flores e declarações de amor, passei a ganhar camisolas. Céus, por quê? Lá no fundo, ainda era eu quem habitava aquele corpo. Completamente mudada, mas eu.

E os meses passaram. Um dia, numa daquelas gargalhadas deliciosas que nossa filha dava, o canto da boca dela curvou como o seu. E seus olhos brilharam como os meus. Como parceiros nessa nova aventura, apenas nossos olhos poderiam brilhar da mesma forma. E foi quando lembrei: eu te escolhi. E todos os motivos continuavam lá, no meio daquela loucura deliciosa que tomou conta das nossas vidas. Romantismo até que a morte separe é utopia das mais ordinárias, ninguém é feliz e saltitante todo santo dia.

Por você ser a pessoa mais inteligente que eu já conheci. Por não precisarmos fingir: eu durmo de meias, durmo no meio dos seus filmes preferidos e durmo durante as conversas noturnas. Porque com você, o silêncio não é inoportuno. Porque temos liberdade de falar sobre qualquer assunto. Porque já passamos juntos por momentos espetaculares. Porque já passamos juntos por momentos terríveis. Porque você compra as minhas brigas. Porque seus olhos mudam de acordo com seu humor. E porque, mesmo a cor dos meus não mudando, você sabe reconhecer os dias em que eu não quero falar. Porque você prefere meu cabelo do jeito que ele é, meu corpo do jeito que ele é e eu, do jeito que eu sou. Porque você realizou duas vezes meu sonho de maternidade e porque nós sobrevivemos juntos ao que veio depois dela. Porque você tem respostas incríveis para os nossos filhos. Porque você inventa as melhores brincadeiras. Porque quando nos beijamos e eles posicionam-se entre nós, enciumados, você vê tanta graça quanto eu. Porque você coloca nossa família antes de tudo na sua vida. Porque seu programa perfeito é estar em casa com nós três. E porque quando passeamos, você ainda me dá a mão.

Eu te escolhi.

É ao seu lado que vivo as maiores e melhores loucuras da minha história. Eu não te pertenço, mas te escolho todos os dias da minha vida.”

(Foto de Shirly Glikas)

(Foto de Shirly Glikas)

O texto original está aqui: http://revistacrescer.globo.com/blogs/Blog-da-Crescer/Blogueiros-convidados/noticia/2015/08/com-chegada-dos-filhos-nosso-casamento-sofreu-um-baque-que-era-dificil-prever.html

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