INSPIRAÇÃO: Ela voltou a acreditar em si através de sua arte

A colombiana de Cali, Karen Sander, chegara aos Estados Unidos com o sonho de estudar piano e composição. Era 1980 e ela estava matriculada na prestigiada Berklee College of Music, em Boston. Mas pouco tempo depois, forçada a abandonar os estudos em função de uma cirurgia na mão direita, decidiu seguir seu caminho cursando engenharia do som na mesma universidade. Até que novamente, o acaso bateu à sua porta: Karen descobriu-se grávida da única filha.

Sua maior preocupação passou então a ser o sustento da família como mãe solteira. Abandonou a trajetória inicialmente planejada para, ainda jovem, trabalhar como recepcionista no hospital infantil da cidade. Ambiciosa, passou a ser constantemente promovida: de secretária a coordenadora de vendas e marketing em diversas corporações dos Estados Unidos. Com o espanhol como língua materna, trabalhava em departamentos focados na América Latina e logo percebeu que sem um diploma, ficaria estagnada. Decidiu, assim, voltar a estudar. Foram tempos difíceis, com uma filha pequena – que às vezes a acompanhava nas aulas – e o trabalho necessário para o sustento das duas. Mas em poucos anos, Karen estava formada em Comercio Exterior, além do mestrado na mesma área, sempre com notas altas e honras, tamanha sua dedicação.

Com o passaporte para um trabalho mais valorizado e uma menina de treze anos, ela decidiu passar um período na Colômbia. Era no país em que estava sua família e onde ela gostava de passar um tempo antes de tomar as decisões necessárias para seguir adiante. Com um bom emprego, viveu lá por dois anos até a filha, saudosa do país que era seu lar, convenceu-a a voltar. A carreira de Karen começava a deslanchar.

Quando sua menina estava prestes a entrar na universidade, Karen, que já tinha cargo de vice-presidente além de lecionar na universidade que frequentara, decidiu abrir a própria empresa de marketing e desenvolvimento empresarial em Washington, DC. Sua vida era focada no trabalho e na preocupação em garantir uma boa base financeira à filha.

A esta altura, com uma vida extremamente confortável – tinha casa no melhor bairro da cidade, carro e viagens – sua filha estava estudando em Boston e nada mais passou a fazer sentido. Sua casa estava vazia e ela preenchia esta sensação trabalhando cada vez mais. Oito horas transformaram-se em dez, doze, dezesseis, dezoito, até que tudo começou a ruir. Chegava em casa à meia noite, dormia três horas para acordar e trabalhar em home-office até o momento de seguir para o escritório. Karen começava a entrar em colapso, sentia seus nervos à flor da pele, sem entender o porquê. Até que, em pouco tempo e após buscar opinião de diversos médicos, foi diagnosticada com transtorno bipolar. As medicações começaram. A doença intensa foi uma bola de neve que acabou por destruir sua carreira. Nos momentos de lucidez ela tentava continuar seu trabalho na universidade e na empresa, até que, após quatorze eletrochoques necessários para o tratamento de uma depressão profunda, ela perdeu a memória a curto e longo prazo. Já não podia lembrar como realizar tarefas básicas, como uma pesquisa de mercado ou um plano de negócios.

Com a filha formada e já trabalhando, Karen decidiu voltar à Colômbia onde procurou por novos médicos que confirmaram novamente o diagnóstico. Neste momento, sem condições de seguir adiante na carreira e muito doente, pediu ajuda à mãe. Como pintora, ela abriu novas portas para filha.

(Fonte: Arquivo pessoal)

(Fonte: Arquivo pessoal)

Quatro anos passaram-se desde que iniciou esta nova trajetória. Hoje, Karen já organizou sete exposições – uma delas no Museu do Louvre, em Paris – ganhou prêmios e participou de publicações. “Continuo lutando contra a doença, mas aproveito a oportunidade que Deus me deu de continuar trabalhando e sendo produtiva”.
No início, ela não imaginava que pintar fosse preenchê-la. Sentia falta da Karen que foi, mas já não podia mais lutar contra a que era agora. Apesar de sentir falta da independência financeira e dos confortos materiais, ela voltou a acreditar em si através de sua arte. “Já não pergunto ‘por que eu’, mas eu pinto com a convicção de que preciso aprender com tudo o que passei”. Com uma vida pacata e mais tempo para dedicar-se à família e à mãe, que já tem oitenta anos, ela decidiu render-se ao seu destino.

(Fonte: Arquivo pessoal)

(Fonte: Arquivo pessoal)

Quando disse à Karen que o título desta coluna era inspiração, ela me presenteou “Obrigada, Nurit. Ninguém planeja que sua vida seja inspiradora, mas eu espero profundamente que minha história possa tocar a vida de quem esteja passando por alguma dificuldade”.
Compartilhar é permitir ser tocada e tocar através da inspiração. Obrigada a você, Karen.

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