CRÔNICA: O esteriótipo está apertado. Tem um número maior?

Carlos usa barba longa, brincos de argola, tem trinta e oito tatuagens e prefere jaquetas de couro. Em seu carro, um grande adesivo escancara “rock’n roll forever”, mas ele prefere mesmo dirigir sua moto, potente, sonho de consumo que alimentou por anos. É fã de Metallica e, como sempre teve ouvido musical, aprendeu a tocar baixo sozinho, aos treze anos. Frequenta bares às quintas e costuma pedir cerveja gourmet.
Nas horas vagas, faz tortas sob encomenda.

Carlos tem mãos fortes, importantes para sovar a massa, e paladar apurado. A mãe, exímia cozinheira, o introduziu no universo de aromas culinários e, provavelmente por isso, seu ambiente preferido da casa sempre foi a cozinha. É um alquimista. E nutre uma paixão especial por tortas. Mistura sabores inusitados e perfuma toda a vizinhança. Limão com papoula, amêndoas com laranja e – sua especialidade – maçã com canela e creme de baunilha são algumas das suas famosas delícias.
Às quintas-feiras, toca baixo em uma banda de rock.

Fernanda teve dois filhos e decidiu que seria uma mãe presente. Deixou seu cargo como gerente em uma multinacional e lançou um blog de maternidade. Registra as pinturas, os bolos e as caretas que faz com as crianças. Prepara refeições conforme a cartilha de sua geração – tudo orgânico, sem glúten, com farinha integral e chia. Impõe limites, acompanha os temas de casa, sabe de cor e salteado os centímetros, os kilos e o número de calçado de cada membro de sua família.
Três vezes por semana, frequentava casas de swing com o marido.

Fernanda sempre foi questionadora. Os padrões de comportamento vigentes não lhe pertenciam, bradava ela. Durante a juventude, cedeu a todas suas curiosidades. Até conhecer Maurício. Com ele, sentiu vontade de acomodar-se, alugar um apartamento, comprar um cachorro e comer cereais matinais na varanda. Durou pouco. Amavam-se, mas sabiam que seriam felizes apenas até que a monotonia da rotina os separasse. Eram voyers, pouco possessivos e parceiros de descobertas. Desde que descobriram as casas de swing vivem empolgados. Já decidiram que, se a relação voltar a cair na rotina, sairão atrás de novidades.
Ela apenas não gosta de voltar tarde para casa. Tem dois filhos e gosta de acordar cedo com eles.

Madame Jacquelyn é famosa por suas aulas de etiqueta. Seu cabelo, impecavelmente construído à base de bobes e laque, resistiria intacto a uma madrugada de Carnaval na avenida, coisa que – evidentemente – ela jamais cogitou frequentar. Suas mãos macias, com unhas sempre bem feitas, demonstram com sutileza aos alunos a posição ideal da faca de peixe e da taça de vinho rose. Em ocasiões especiais prefere espumante Brut e jamais consideraria servir um jantar que não fosse finalizado com madeleines.
E ela adora passar trotes telefônicos.

Madam Jacquelyn já pensou em frequentar a terapia. Mas, pensa ela, são tão pouco os prazeres da vida nesta sociedade hipócrita, que resolveu aceitar seu vício. Acorda e antes de colocar pepinos nos olhos, pega o telefone e disca um número aleatório. Faz piadas de gosto duvidoso, fala palavrões e gargalha. Sente um prazer inexplicável, talvez próximo ao êxtase. Ela só acha uma pena o advento da bina, que já lhe gerou alguns desconfortos. Enfim, poucas pessoas tem seu senso apurado de humor. A filha, por exemplo, que a considera louca.
Apenas para de gargalhar histericamente entre as quinze e as dezoito, quando ministra cursos de etiqueta em sua Maison.

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