ACONTECEU COMIGO: Papéis de carta

#Repost

Eu tinha sete anos, era meiga, comportada e trocava papéis de carta na hora do recreio. Ele tinha a mesma idade, mas colecionava advertências no colégio – a versão infantil do tradicional cafajeste.
Até hoje não tenho certeza sobre qual dos atrativos o fez abdicar da vida de pular muros e falar palavrões em sala de aula: se foi meu jeito doce, o penteado chanel com franja ou a fantasia que meus pais me faziam usar em todos os eventos carnavalescos da infância:
– Eu estou de Branca de Neve. E você?
– De Melindrosa
– O que é isso?
– Não sei
A tal fantasia, feita em caráter exclusivo e sob medida na fábrica de lingerie do meu pai, consistia num corpete de renda com enchimento no soutien, adornado por penacho na cabeça, meia calça arrastão e cinta liga (sim, cinta liga). Para completar a posterior necessidade de terapia, minha mãe pedia que eu fizesse pose de “can can” para registrar tais momentos.
Então certa vez, saindo da aula após uma chamada oral de tabuada, um amigo veio entregar o papel de carta brilhante dobrado. Detalhe: o papel de carta brilhante está para os anos oitenta assim como a figurinha do Neymar no álbum da Copa está para os tempos atuais.
“Quer namorar comigo?”, em letras pré-alfabetizadas.
Querer eu não queria e como sempre tive facilidade em impor minhas opiniões:
– Responde que sim
A partir do dia seguinte, não fazia mais castelos de areia ou pulava amarelinha na hora do recreio. Eu andava de mãos dadas. Na educação física, ninguém podia atirar a bola em mim durante o jogo de queimada e na aula, trocávamos olhares. Longos. Infinitos. O negócio estava sério, apesar de um pouco chato.
Algum tempo passou e certo de seus sentimentos, outro papel de carta dobrado.
“Quer casar comigo?”.
Bom, não deve ser tão difícil assim. Apesar dos adultos viverem dizendo que a vida era complexa, eles não precisavam ir para a escola, não ficavam ansiosos se seriam os últimos escolhidos para o time de pique bandeira e nem tinham que decorar a tabuada. Estava pronta para este mundo. Além do mais, provavelmente poderia continuar morando com a minha mãe.
– Pode ser.
No recreio posterior, tirei minha saia de tule e camiseta branca da mochila para, sob olhar de alguns amigos, nos casamos antes do sinal tocar. Teve rabino mirim, buquê e copo de plástico quebrado. Até ganhei uma caixinha de música e um perfume de alfazema. Agora era pra valer, ai de quem encostasse em mim na queimada.
O tempo passou.
Até que dois dias depois, cansada da rotina de mãos dadas e invejando as brincadeiras das meninas, chamei o amigo de sempre:
– Diz pra ele que quero me separar.
Ele foi. E voltou com um papel de carta. Dobrado.
Não abri. Tinha medo de que ele estivesse dando um aviso “vou te pegar na saída”. Fui descobrir a mensagem alguns dias depois, na sala da diretora, com minha mãe explicando que por causa da carta eu estava com medo de ir para a escola.
“Mesmo você não me querendo mais, vou te amar para sempre”. Um coração com uma lágrima dentro.
Uma semana depois, ele estava casado com outra menina. E eu voltei à minha rotina de trocar papéis de cartas:
– Posso. Posso. Mais ou menos. Não posso. Posso.
– Você pode este brilhante?
– Ahã
– Uau!
E eu, com perfume de alfazema, achando graça na ingenuidade das meninas que ainda gostavam de papéis de carta sem declarações de amor.

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