ACONTECEU COMIGO: O planeta sem margarina

#repost

Estes dias, uma conhecida cronista de Porto Alegre escreveu um texto sobre falta de educação e citou em sua extensa lista, pais cujas crianças fazem birra em locais públicos e mães que deixam os filhos brincarem com tablets em restaurantes (“não querido, tablet não…. Estamos num comercial de margarina, então vamos fazer uma refeição de duas horas tranquilamente. Isso, sorrindo…”). Enquanto lia, quase engasguei com o suco, mas como meu filho tropeçou em seguida, não tive tempo hábil para tal.
Uma das mudanças mais interessantes que a maternidade proporciona é a intimidade súbita entre mães: você sentada numa mesa de restaurante, quando chega outra mulher com duas crianças a tiracolo, uma berrando, a outra pedindo para fazer xixi e imediatamente vocês se reconhecem sorrindo mutuamente, como que dizendo “Olá conterrânea planetária”. Sim, porque se os homens são de Marte e as mulheres de Vênus, as mães definitivamente compõem uma subclasse distinta, ocupando uma extensa região do planeta feminino ou até, outro astro todinho delas.
E uma vez inseridas na categoria, ou advindas da tal região extraterrestre, passam a trocam intimidades como se fossem amigas de infância:
– Acho que a pega do meu bebê não esta correta. Ui. Arde quando ele mama.
– Peraí, eu te ajudo. Isso, senta mais para lá, deixa o seio nesta posição. Ahã, posso mexer? OK, isso. Viu?
– Nossa, ficou perfeito.
E assim, numa fase em que você considera que ‘O que esperar quando se está esperando’ mereceria o Nobel de literatura, que a única política interessante é a de trocas e devoluções da loja infantil mais próxima e na sua última viagem mal notou a paisagem, mas tirou quatrocentas e vinte fotos do seu filho, vocês tem umas às outras, já que para o resto da sociedade passaram a ser aquela mulher que ‘Afe, não fala de outra coisa’.
– Vocês viram a situação da Ucrânia?
– Ahã.
– Hum… Não muito.
– Gente, faz oito dias que o Fabinho acorda de três em três horas a noite toda.
– Não acredito, já tentou o Nana Nenê? Tem gente que detesta mas em casa funcionou.
– Eu prefiro a técnica da Encantadora de Bebês. Quando ele chorar, entra no quarto…
O mercado já notou esta explosão de hormônios e necessidade de agregação, passando a oferecer serviços voltados para o público materno:
– Esta hidrodinástica é ótima, a gravidez me deixa com retenção de líquidos
– Isso que você ainda está no segundo trimestre. Eu mal ando. Sexo então, nem pensar.
– Aliás, prazer, Anabela
– Prazer, Juliana
Então, passada a fúria da carapuça que vestiu com o tal texto, resolvi relaxar. Afinal, cada um que converse com seus iguais. Quem sabe um dia, conterrâneas, também não sentemos numa tarde silenciosa, jogando conversa fora, discutindo política, Nobel de literatura e viagens culturais? E quando bater a fome:
– Garçom, me traz uma porção de margarina?

Anúncios

One thought on “ACONTECEU COMIGO: O planeta sem margarina

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s