ACONTECEU COMIGO: Somos ainda violentadas

“Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino.”
(Simone de Beauvoir)

E assim, quase sete décadas após o lançamento de Segundo Sexo, a frase volta a gerar polêmica. Ainda mais numa prova em que jovens que precisam refletir sobre a questão. Ainda mais quando, na mesma prova, precisam escrever sobre a perpetuação da violência contra a mulher na sociedade.
Querem saber? Lindo. Reflexão valiosíssima em pleno século vinte e um, opinião da coxinha aqui.
Simone era marxista e a própria igualdade entre gêneros historicamente mesclou-se com a igualdade entre classes. Mas vamos lá: passaram-se sessenta e seis anos, precisamos resumir esta discussão a ‘coxinhas x petralhas’?
Uma semana após as mulheres terem sido privadas do direito sobre seu corpo e de seu futuro com a proibição de qualquer método abortivo e, ainda, poucos dias após um maravilhoso debate nas mídias sociais sobre assédio, nenhum tema poderia ser mais aplaudido.
Sou defensora ferrenha do capitalismo. E sou feminista moderna, das que jamais queimariam um soutien, como já escrevi tantas vezes. Precisamos separar estes conceitos para podermos discutir sem qualquer contaminação assuntos relevantes. E a frase de Simone de Beauvoir precisa ser pensada.
Esqueçam Bolsonaro. Esqueçam Maria do Rosário. Esqueçam estereótipos.
Tornamo-nos mulheres quando assumimos nossa essência. E com ela brigamos no mercado de trabalho que escolhemos. Tornamo-nos mulheres quando gestamos – no útero ou no coração. Ou quando escolhemos não gestar. Tornamo-nos mulheres quando assumimos o direito de escolher com quem nos relacionaremos. Tornamo-nos mulheres quando nos empoderamos de nosso corpo. Tornamo-nos mulheres quando encaramos – chorando, berrando ou denunciando. Tornamo-nos mulheres quando assumimos o direito de sermos quem quisermos, de nos vestir como quisermos, de trabalhar com o que quisermos, de viver como quisermos.
Tornamo-nos mulheres quando assumimos nossa essência. E por causa dela somos sim abusadas e violentadas. Ainda. Em pleno século vinte e um. Não acredita? Pergunte para cinco mulheres ao seu lado, uma amostragem microscópica, e depois multiplique. Somos milhões abusadas ou violentadas.
Reflitam, jovens. Reflita, sociedade. Porque ainda haverá muitas tornando-se mulheres.

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