CRONICA: Viva Lourdes

Perla acordava doce. Cabelo engrenhado, olhos tentando recusar o sol que insistia em brilhar. Um leve mau-humor não era suficiente para abafar o ar pueril. Perla acordava verdadeira. Cheiros verdadeiros, olheiras verdadeiras, corpo verdadeiro. Perla, doce.

Maria estava sempre apressada. O mau-humor da manhã era responsável pelo atraso habitual. Engolia um suco pronto de laranja e equilibrava, entre pastas de trabalho e tablet, o pão com geléia que comeria no caminho. Maria não tinha tempo. Tinha o trabalho, a conta de luz que precisaria pagar na volta, a geral no armário de panelas. Maria precisava voar.

Patricia era eficiente. Metódica, eficaz, cabelo liso, sombra cinza, gloss avermelhado. Digitava, tabulava, colocava a palavra certa em cada sentença. Sorria quando deveria sorrir. Falava quando precisava falar. Apoiava os óculos metodicamente sobre a mesa. Eficiente, perfeita, Patricia.

Lourdes era visceral. Tirava o desconfortável soutien já no carro. Ouvia jazz no máximo volume. Acendia um cigarro, abria um vinho. Respirava fundo. Sentia. Era. Existia. A sombra borrada e o cheiro de perfume misturado a desodorante e suor faziam dela essência. Era ela entre o que fora e o que estava por vir. Viva Lourdes.

Noeli era correta. Pijama, Ave-Maria, novela, saladinha. Cheiro de sabonete. Deitava na cama, tomava a vitamina D, ajeitava a placa nos dentes. Tentava relaxar os pensamentos, torcia por sono ininterrupto. Sonhava. Era quase hora de ceder a vez.
Perla estava por vir.

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