ACONTECEU COMIGO: Who the fuck

“Mano, mano, manooooo”. Assim uma matéria na revista TPM citava a emoção de uma pré-adolescente ao saber que seu tio, jornalista, entrevistava a razão de seu afeto descontrolado. Título da matéria: “Who the fuck is Kefera”. Pois acompanhe. Kefera é uma youtuber de sucesso, celebridade capitalizada com milhões e milhões de seguidores. Seus vídeos abordam assuntos tão relevantes quanto ‘como fazer número dois na privada alheia’ e o livro homônimo ao seu canal virtual é best-seller. Eu cá, fazendo oficina literária, citando Simone de Beauvoir em programa de rádio e Kefera vendendo em um semana o que escritor indicado a prêmio literário não vende em dez anos de labuta intelectual. Inspira. Afinal, não é surpresa alguma em tempos de pensadoras com sobrenome artístico de referências glúteas.

E enquanto você pasta como empresário optante pelo Simples, tem blogueira ornada com bolsa verde limão alavancando o PIB do país com curtidas ao postar foto com cara de ‘New Yorker rock’n roll’ enjoada. Talvez seja um sinal do fim dos tempos improvável até para Nostradamus.

Pois certa nostalgia remete a março de 1985.

Uma geração de crianças apaixonadas – sem sequer saber o significado de paixão – por um grupo musical denominado Menudos. “Who the fuck are Menudos”, talvez os adultos perguntavam-se à época. Acompanhe. Menudos era um grupo musical ultra brega de adolescentes Porto Riquenhos que fez uma geração inteira decorar coreografias ridículas. Conheço particularmente a história de uma menina que no ano citado tinha quatro primaveras e um poster do grupo na porta de seu quarto. Ela chupava dedo, tinha medo do escuro e dormia feliz olhando a tal foto que deve ter tido uma tiragem de dar inveja à criadora de Ilariê, outro sucesso cultural da época. Pois tão desesperada estava a menina para conhecer seus ídolos, que implorou para que a mãe comprasse três ingressos para o show do dia dezesseis no estádio do Morumbi: um para cada uma, além da irmã caçula, de dois anos. No dia não houve “Mano, mano, manoooooo” pois esta gíria surgiria apenas algumas décadas mais tarde, mas a mãe me contou por estes tempos que ouviam-se gritos ensurdecedores de crianças histéricas que já deveriam estar era na cama. Choveu. Roy, Robi, Ricky e Johnny atrasaram. Foi o inferno na Terra. Especialmente quando chegaram e começaram com sucessos musicais afinados como “Não se reprima”. Se não ficou claro, explicito: a mãe santa em questão era a minha e a criança surtada que fazia coreografias ridículas aos quatro anos era eu.

Fica a esperança. Não me reprimi e inclusive me redimi, apesar de algumas marcas eternas como o fato de não conseguir me desfazer do tal disco. Talvez – torçamos – tenha mais a ver com Freud que com Nostradamus e não seja um sinal dos fim dos tempos.

Foi mal aê, Kefera.

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