ACONTECEU COMIGO: Por que interrompi seu silêncio para dizer que te amo

“Sobre o que eu falo agora?”. Quando precisamos nos mostrar interessantes, os assuntos são planejados e qualquer silêncio tem um poder devastador de constrangimento. Dezessete anos atrás era este o meu pensamento no carro.

Nos conhecemos numa viagem, uma semana antes, e não lembro ter dito muita coisa além do meu nome nos três dias em que estivemos juntos. Não houve nessidade, tempo ou oportunidade, ocupados que estávamos com a paixão à primeira vista. Então voltei para a praia em que passava férias e para a completa realização da adolescente que habitava meu corpo, ele veio me buscar. Uma hora e meia no carro, somente nós dois.
Nos conhecíamos tão pouco, apesar de nos conhecermos tanto.

A verdade é que nos meses seguintes ou até nos primeiros anos, nunca faltava assunto. Todos os dele eram interessantíssimos para mim e provavelmente a recíproca era verdadeira, já que ele sempre voltava. E ficava. No começo temos uma infância inteira para contar, a adolescência, os trabalhos, as experiências, as viagens, os ciúmes, os gostos, os nojos. O que falta é tempo para a ânsia de colocar o outro a par da nossa vida.

Um dia, notamos que já dissemos quase tudo. E passamos a falar do dia de hoje, do chefe, do trânsito, dos planos para o final de semana. Se ele continuar ficando, a gente precisa discutir sobre a aliança – algumas vezes -, o apartamento, o sofá, o teste positivo, o berço, o pediatra.

Já conversamos, compartilhamos, discutimos. Hoje, eu tenho certeza que ele ficará. Amanhã acordaremos juntos, contaremos sobre o dia, a rotina, os planos, as idéias, a política. A minha certeza, eu sei, é a dele também. E não tem qualquer relação com a discutida aliança.
Quase duas décadas após aquele dia no carro, ainda tenho ânsia por chegar em casa para colocá-lo a par dos meus pensamentos. E todos seus assuntos continuam interessantíssimos. Apesar dos anos, da vida real e da adolescente ter abandonado há anos meu corpo. Nosso tempo voa porque há tanto por compartilhar ou porque precisamos de silêncio, sozinhos. Mas juntos. E ele é compreensão, cansaço, respeito, amor. Sem poder algum de constranger.

Ainda anseio por nossa uma hora e meia todos os dias.

Ficaremos.

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