ACONTECEU COMIGO: SERÁ QUE…

SERÁ QUE…
… Se não fosse réveillon, eu não teria planejado estar numa viagem em grupo no final de semana para depois me arrepender e pensar que tudo o que eu desejava era aproveitar o verão inteiro na praia, não teria quase desistido não fosse uma amiga contando com minha parceria, não teria entrado naquele ônibus com um travesseiro e não teria, ali mesmo, te visto pela primeira vez? Será que se não fosse a distração de estar subitamente apaixonada aos dezoito anos eu não teria voado perdida em pensamentos ao invés de sair correndo para escolher a cama no quarto onde estavam minhas conhecidas, não teria sobrado sem espaço, não teria ficado absolutamente despreocupada e aceitado mais tarde a oferta do espaço ao seu lado? Será que se não fosse réveillon eu não teria dado um gole na sua cerveja, me encantado com seus olhos, iniciado um papo bobo e esquecido que haviam outras trezentas pessoas além de nós? Será que se não fosse réveillon eu não teria, com o coração na boca, te procurado um pouco antes da meia noite? Será que não teria te encontrado também procurando por mim?
Será que se não fosse réveillon nós nunca teríamos nos beijado?

Ainda bem que era.

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ACONTECEU COMIGO: Saudades do papel crepom

– Onde você passará o DVD com os melhores momentos?
– Mas foram trezentos e sessenta e cinco dias.
– Exato, os melhores da sua vida.
– Está certo. Mas acho que deixarei acumular para quando ela comemorar Bodas de Prata.
– Você é quem sabe. E a decoração será com fotos do álbum Smash the Cake ou Newborn?
– Que?
– A decoração.
– Ah, balões. Talvez umas bandeirolas…
– Não, precisa ter fotos.
– Minha irmã tira fotos lindas…
– Olha, eu até acredito, mas crescer sem um álbum com ensaio mais profissional, entende? O tempo não volta.
– Sem problemas, estou economizando para a terapia.
– Bom, brigadeiros. Recomendo pistache, doce de leite uruguaio e churros.
– Não me diz que tiraram o Nescau do mercado?!
– Certo, entendi. Prefere o bom e velho chocolate. Belga?
– Nescau.
– Chocolate orgânico 70%?
– Nescau.
– Olha, as famílias hoje estão meio reticentes com relação à gordura trans…
– Nescau, coxinha frita e bolo com glúten.
– Certo. Então quem sabe uns canapés para os pais?
– São todos da década de setenta. Ou oitenta e olhe lá. Um bolinho de queijo e escorrerá uma lágrima de emoção no canto dos olhos.
– Lembrancinhas personalizadas nem pensar, né?
– Não. Vamos voltar ao que interessa.
– Certo. Aniversário da sua filha.
– Isso.
– O que você queria saber mesmo?
– Se eu posso encomendar o bolo aqui…
– Pasta americana ou naked cake?

ACONTECEU COMIGO: Feliz 2016

Trinta e cinco. Não troco por nada neste mundo. Nem pelo corpo de vinte ou sequer por suas possibilidades infinitas. Mais norte, menos neuras: viva o que ganhamos com o passar dos anos. Para o próximo estão programados, além da tatuagem que nunca tive coragem, a liberdade que só um – desculpe o vocabulário baixo, mas não há sinônimo à altura no Aurélio – foda-se bem dado é capaz de oferecer. Cansei de perder minha paz.

Prefiro. Vermelho. Na casa, na unha, nas roupas. Nina Simone, The Cranberries, mulheres cantando – não é sexismo, mas fascinação. Beleza Roubada, meu filme. Como Água para Chocolate, meu livro. Melhores que terapia. Ou pensando bem, adoraria voltar para a terapia. Sanidade, alívio, paixão: colocar os pensamentos no papel. Não gosto de novela, não sei quem é aquele ator, desculpe. Se quiser conversar sobre roupas, procure outra pessoa: descobri faz pouco o que é MK. A favor da legalização da maconha e do aborto. Raramente perco a paciência. Perdi com você? Acredite, passou dos limites. Ou me acordou cedo. Frequento grupos de Whatsapp por convenção social, me enlouquecem. Sei fazer baliza, carregar mala, matar aranha. Sexo frágil só na hora de abrir o vidro de palmito.

Preciso. Cafeína para começar. Merlot para terminar. Não negociáveis. Um bom papo e te conto minha vida. Viver no campo, cheiro de bolo saindo do forno, de refogado, de lavanda. Altamente viciada em assumir dezenas de projetos paralelos. Ócio, quem? Dias de vinte e quatro horas e sou eu quem preciso dar um jeito do meu mundo caber neles.

Amo. Eu te amo na hora certa, eu te amo na hora errada, eu te amo sem hora alguma. Ser protetora incondicional de pesadelos, detentora de beijos mágicos que curam machucados e da receita secreta de suco do Hulk. Orgulho de filho querendo voar, felicidade com filho querendo voltar. Cheiro de filho, abraço de filho, sono de filho, risada de filho, pergunta de filho, mundo de filho, filho. Casamento e maternidade, meus dois pés no chão e coração nas alturas. Esquece, é mais: meu universo.

Sou. Dois quadros pintados pelo meu avô, herói, gigante enfeitando minha vida: um rabino e o viaduto da 23 de maio. Judaísmo e minha cidade natal. Tantos anos depois e uma mensagem ao pisar em casa “chegou bem, filha?”. A intimidade de saber que minha TPM é curada com chocolate branco ou uma dose etílica. A intimidade. Abraço sem motivo. “Dormiu bem?”. Lar. Leão, ascendente em escorpião. De meiga, só a fachada. Ordem externa, caos interno. Solitária sem solidão, amante do silêncio.

Quando eu crescer. Quero. Muito. Ainda.

Viciada em retrospectivas de dezembro. Sempre tão bom fazer um balanço. Num ano maluco e com perspectivas difíceis, desejo que possamos seguir respeitando o que preferimos, precisamos, amamos, somos e olhando para nossas possibilidades, que continuam infinitas.
Feliz ano novo!

ACONTECEU COMIGO: Somos ainda violentadas

“Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino.”
(Simone de Beauvoir)

E assim, quase sete décadas após o lançamento de Segundo Sexo, a frase volta a gerar polêmica. Ainda mais numa prova em que jovens que precisam refletir sobre a questão. Ainda mais quando, na mesma prova, precisam escrever sobre a perpetuação da violência contra a mulher na sociedade.
Querem saber? Lindo. Reflexão valiosíssima em pleno século vinte e um, opinião da coxinha aqui.
Simone era marxista e a própria igualdade entre gêneros historicamente mesclou-se com a igualdade entre classes. Mas vamos lá: passaram-se sessenta e seis anos, precisamos resumir esta discussão a ‘coxinhas x petralhas’?
Uma semana após as mulheres terem sido privadas do direito sobre seu corpo e de seu futuro com a proibição de qualquer método abortivo e, ainda, poucos dias após um maravilhoso debate nas mídias sociais sobre assédio, nenhum tema poderia ser mais aplaudido.
Sou defensora ferrenha do capitalismo. E sou feminista moderna, das que jamais queimariam um soutien, como já escrevi tantas vezes. Precisamos separar estes conceitos para podermos discutir sem qualquer contaminação assuntos relevantes. E a frase de Simone de Beauvoir precisa ser pensada.
Esqueçam Bolsonaro. Esqueçam Maria do Rosário. Esqueçam estereótipos.
Tornamo-nos mulheres quando assumimos nossa essência. E com ela brigamos no mercado de trabalho que escolhemos. Tornamo-nos mulheres quando gestamos – no útero ou no coração. Ou quando escolhemos não gestar. Tornamo-nos mulheres quando assumimos o direito de escolher com quem nos relacionaremos. Tornamo-nos mulheres quando nos empoderamos de nosso corpo. Tornamo-nos mulheres quando encaramos – chorando, berrando ou denunciando. Tornamo-nos mulheres quando assumimos o direito de sermos quem quisermos, de nos vestir como quisermos, de trabalhar com o que quisermos, de viver como quisermos.
Tornamo-nos mulheres quando assumimos nossa essência. E por causa dela somos sim abusadas e violentadas. Ainda. Em pleno século vinte e um. Não acredita? Pergunte para cinco mulheres ao seu lado, uma amostragem microscópica, e depois multiplique. Somos milhões abusadas ou violentadas.
Reflitam, jovens. Reflita, sociedade. Porque ainda haverá muitas tornando-se mulheres.

ACONTECEU COMIGO: Tira as mãos da minha coxa porque eu quero passar

#Repost

(Ou sobre atitudes patéticas em pleno século vinte e um)

Mulherzinha ou mulherão.
Feminismo estereotipado, daquele em que mulheres falam grosso e lutam por igualdade num mercado de trabalho masculinizado e que desconsidera sensibilidade não me agrada, se é que ainda existe. Contundência é uma característica, assim como espontaneidade, doçura, intuição e tantas outras que possuímos ou adquirimos ao longo da vida.

Sou vaidosa, pinto as unhas de vermelho, falo baixo e meu biotipo é frágil. Já cuidei dos meus filhos por anos em período integral e ainda hoje, não agendo qualquer compromisso que não encaixe-se à rotina deles. Asso bolos, cuido do meu marido, não banco minha casa financeiramente. Mas sou feminista.

Depois das mulheres – palmas – berrarem para conseguir um lugar ao sol e de tantos papéis serem embaralhados, percebemos que o tal estereótipo pode não caber na agenda da vida real. E finalmente, que feminismo possível é empoderamento pessoal. Só que não bastasse o caminho que percorre-se para atingi-lo, existem ainda obstáculos de um modelo que, de tão embolorado, deveria estar em desuso.

Patético do homem que usa de qualquer posição superior para tocar onde não deve. Pobre de espírito dos que não escutam nossa verdadeira voz. Infeliz dos que acreditam no machismo inabalável. E se, assim como eu, você aguarda a próxima encarnação para aprender a berrar e normalmente resume-se a chorar, chore. Atitude libertária não passa necessariamente por saber dar um tapa na cara, mas por ter coragem para sermos quem quisermos. Apesar da mão na sua coxa, apesar do cala a boca.

Se nos falta força para encarar a grosseria, isso não nos faz mais fracas. Força mesmo é não ficarmos escondida sob esta sombra. Já chorou? Enxuga as lágrimas e corre atrás da sua existência, seja ela qual for: como executiva de multinacional ou como mãe em tempo integral. Vivenciando-a com desejo, você será a maior das feministas. Empoderando-nos estamos livres para seguir o caminho que escolhermos.

Esqueça a figura de mulher forte que berra, mas papel secundário não é opção. Nem mulherão, nem mulherzinha. E se não conseguir berrar quando alguém que esqueceu de virar o século colocar a mão na sua coxa sem permissão, pede licença e levanta. Apenas assim, enquanto ele embolora, poderemos ser protagonistas da nossa história.

ACONTECEU COMIGO: 10 coisas que não acontecem só na sua casa

Na semana do Dia das Mães, a marca Marisol me convidou a listar algumas angústias da maternidade comuns a todos os endereços. Foi o jeito deles de convocar todo mundo a respirar fundo, relaxar e viver a Feliz Idade das crianças com mais leveza, brincadeiras e humor, que faz parte da proposta super bacana da marca.

E aqui esta a lita que fiz. Quem concorda?

10 coisas que não acontecem só na sua casa

1- Logo no início, descobrimos que puerpério não é uma espécie de molusco. É uma fase em que os hormônios resolvem fazer um baile de Carnaval em nosso corpo. A gente chora quando deveria estar sorrindo, jorra leite nos momentos mais impróprios e tem certeza de que não vai dar conta da maternidade quando sequer consegue cortar as unhas de um recém-nascido. Passa, ufa!

2- Acreditamos que nosso casamento já enfrentou todos os tipos de desafios, até ter filhos. Entre sutiãs beges, olheiras, despesas elevadas à oitava potência, um corpo que ficou com certas sobras, papos escatológicos e uma cama de casal que está mais para coração de mãe, conhecemos o verdadeiro “e foram felizes para sempre”: o da vida real.

3- Vamos enfrentar: nossos filhos, em algum momento, protagonizarão ataques de birra em locais públicos. Basta escolher se a melhor opção será encarnar a Super Nanny ou voltar correndo para casa.

4- Educar não é moleza: damos bronca quando temos vontade de rir, abraçar, afofar e quando gostaríamos de chorar, consolar, ninar.

5- Não é por falta de coordenação, mas incrivelmente passamos a morder a língua constantemente, permitindo o que em hipótese alguma era cogitado antes de resolvermos desconstruir na prática os comerciais de margarina.

6- Às vezes cansa. Dá vontade de passar uma semana sozinha em Paris, sem qualquer obrigação, tomando champagne às três da tarde. Pode cansar sim, ninguém é uma mãe pior por causa disso. Paris desacompanhada já é bem mais complicado.

7- Lembra daquelas mulheres mais velhas que adoravam falar de casa, rotina e filhos? Então, somos elas.

8- Não falta gente acreditando que sabe fazer qualquer coisa de uma forma melhor que a nossa quando o assunto é cuidar de filhos. O negócio é ignorar, afinal de contas, apenas os nossos beijos conseguem curar os machucados que eles têm na vida. Bem, ao menos enquanto forem crianças.

9- A gente se acostuma com a vida de cabeça para baixo e percebe, na verdade, que ela fica incrível sob esta perspectiva.

10- Tudo, tudo passa. E nos damos conta de que a pena é que passa rápido demais.

Para ler a matéria completa, clique aqui.

ACONTECEU COMIGO: O planeta sem margarina

#repost

Estes dias, uma conhecida cronista de Porto Alegre escreveu um texto sobre falta de educação e citou em sua extensa lista, pais cujas crianças fazem birra em locais públicos e mães que deixam os filhos brincarem com tablets em restaurantes (“não querido, tablet não…. Estamos num comercial de margarina, então vamos fazer uma refeição de duas horas tranquilamente. Isso, sorrindo…”). Enquanto lia, quase engasguei com o suco, mas como meu filho tropeçou em seguida, não tive tempo hábil para tal.
Uma das mudanças mais interessantes que a maternidade proporciona é a intimidade súbita entre mães: você sentada numa mesa de restaurante, quando chega outra mulher com duas crianças a tiracolo, uma berrando, a outra pedindo para fazer xixi e imediatamente vocês se reconhecem sorrindo mutuamente, como que dizendo “Olá conterrânea planetária”. Sim, porque se os homens são de Marte e as mulheres de Vênus, as mães definitivamente compõem uma subclasse distinta, ocupando uma extensa região do planeta feminino ou até, outro astro todinho delas.
E uma vez inseridas na categoria, ou advindas da tal região extraterrestre, passam a trocam intimidades como se fossem amigas de infância:
– Acho que a pega do meu bebê não esta correta. Ui. Arde quando ele mama.
– Peraí, eu te ajudo. Isso, senta mais para lá, deixa o seio nesta posição. Ahã, posso mexer? OK, isso. Viu?
– Nossa, ficou perfeito.
E assim, numa fase em que você considera que ‘O que esperar quando se está esperando’ mereceria o Nobel de literatura, que a única política interessante é a de trocas e devoluções da loja infantil mais próxima e na sua última viagem mal notou a paisagem, mas tirou quatrocentas e vinte fotos do seu filho, vocês tem umas às outras, já que para o resto da sociedade passaram a ser aquela mulher que ‘Afe, não fala de outra coisa’.
– Vocês viram a situação da Ucrânia?
– Ahã.
– Hum… Não muito.
– Gente, faz oito dias que o Fabinho acorda de três em três horas a noite toda.
– Não acredito, já tentou o Nana Nenê? Tem gente que detesta mas em casa funcionou.
– Eu prefiro a técnica da Encantadora de Bebês. Quando ele chorar, entra no quarto…
O mercado já notou esta explosão de hormônios e necessidade de agregação, passando a oferecer serviços voltados para o público materno:
– Esta hidrodinástica é ótima, a gravidez me deixa com retenção de líquidos
– Isso que você ainda está no segundo trimestre. Eu mal ando. Sexo então, nem pensar.
– Aliás, prazer, Anabela
– Prazer, Juliana
Então, passada a fúria da carapuça que vestiu com o tal texto, resolvi relaxar. Afinal, cada um que converse com seus iguais. Quem sabe um dia, conterrâneas, também não sentemos numa tarde silenciosa, jogando conversa fora, discutindo política, Nobel de literatura e viagens culturais? E quando bater a fome:
– Garçom, me traz uma porção de margarina?

ACONTECEU COMIGO: Ô tia, tipo assim

#Repost

O trânsito parou e diante da janela do passageiro, ele apareceu. Pele morena, sorriso lindo, cabelos cacheados e pose displicente, recostado ao muro verde. Quase abri a janela para puxar conversa, já que ele notou que eu o observava. Contive meu ímpeto, por sorte, mas teria dito:
– Menino, endireita a coluna e amanhã melhor sair com uma blusa mais fresca, por causa do calor, ta?
Choque! O muro verde era de um curso pré-vestibular e até pouco tempo, eu saia do colégio para almoçar na avenida Paulista e suspirar pelos ‘meninos do cursinho’ que caminhavam em direção ao Objetivo. De repente, passei a ter idade para ser mãe de todos aqueles representantes da raça masculina rebeldes e integrantes de bandas de garagem.
Quando foi que a vida passou em fast foward sem meu consentimento?
Meu mundo andava cheia de sinais e talvez eu já devesse tê-los notado. O comprimento das minhas saias, os bocejos antes da meia-noite, as visitas constantes à osteopata ou a construção de frases sem a palavra ‘tipo’. Mas este fato esfregou uma realidade que eu resistia a aceitar: para alguém de dezessete anos, eu sou tia. Tia!
Hoje, os representantes interessantes da mesma classe tem cabelos brancos (quando os tem), barriga saliente, filhos e quando querem ser rebeldes, exageram na cerveja. Fora que conversam, não gabam-se por cheirar acetona e já sabem que ‘sem celulite’ é propaganda enganosa de creme importado. De fato, os anos trazem mudanças significativas.
O trânsito andou. O menino deve ter continuado seu papo-cabeça-rebelde-banda-de-garagem e eu acelerei meu carro de tia, com dois assentos infantis no banco de trás e bolachinhas no porta-luvas para a hora da fome.
Pensei seriamente em terminar este texto discorrendo sobre o aprendizado e a experiência que o passar dos anos trouxe. As rugas, os cabelos brancos, alguma mensagem de auto-ajuda para a crise de meia idade. Pensei muito. Mas o final não poderia ser outro:
Céus! Eu tenho idade para ser mães dos meninos de cursinho!

ACONTECEU COMIGO: Papéis de carta

#Repost

Eu tinha sete anos, era meiga, comportada e trocava papéis de carta na hora do recreio. Ele tinha a mesma idade, mas colecionava advertências no colégio – a versão infantil do tradicional cafajeste.
Até hoje não tenho certeza sobre qual dos atrativos o fez abdicar da vida de pular muros e falar palavrões em sala de aula: se foi meu jeito doce, o penteado chanel com franja ou a fantasia que meus pais me faziam usar em todos os eventos carnavalescos da infância:
– Eu estou de Branca de Neve. E você?
– De Melindrosa
– O que é isso?
– Não sei
A tal fantasia, feita em caráter exclusivo e sob medida na fábrica de lingerie do meu pai, consistia num corpete de renda com enchimento no soutien, adornado por penacho na cabeça, meia calça arrastão e cinta liga (sim, cinta liga). Para completar a posterior necessidade de terapia, minha mãe pedia que eu fizesse pose de “can can” para registrar tais momentos.
Então certa vez, saindo da aula após uma chamada oral de tabuada, um amigo veio entregar o papel de carta brilhante dobrado. Detalhe: o papel de carta brilhante está para os anos oitenta assim como a figurinha do Neymar no álbum da Copa está para os tempos atuais.
“Quer namorar comigo?”, em letras pré-alfabetizadas.
Querer eu não queria e como sempre tive facilidade em impor minhas opiniões:
– Responde que sim
A partir do dia seguinte, não fazia mais castelos de areia ou pulava amarelinha na hora do recreio. Eu andava de mãos dadas. Na educação física, ninguém podia atirar a bola em mim durante o jogo de queimada e na aula, trocávamos olhares. Longos. Infinitos. O negócio estava sério, apesar de um pouco chato.
Algum tempo passou e certo de seus sentimentos, outro papel de carta dobrado.
“Quer casar comigo?”.
Bom, não deve ser tão difícil assim. Apesar dos adultos viverem dizendo que a vida era complexa, eles não precisavam ir para a escola, não ficavam ansiosos se seriam os últimos escolhidos para o time de pique bandeira e nem tinham que decorar a tabuada. Estava pronta para este mundo. Além do mais, provavelmente poderia continuar morando com a minha mãe.
– Pode ser.
No recreio posterior, tirei minha saia de tule e camiseta branca da mochila para, sob olhar de alguns amigos, nos casamos antes do sinal tocar. Teve rabino mirim, buquê e copo de plástico quebrado. Até ganhei uma caixinha de música e um perfume de alfazema. Agora era pra valer, ai de quem encostasse em mim na queimada.
O tempo passou.
Até que dois dias depois, cansada da rotina de mãos dadas e invejando as brincadeiras das meninas, chamei o amigo de sempre:
– Diz pra ele que quero me separar.
Ele foi. E voltou com um papel de carta. Dobrado.
Não abri. Tinha medo de que ele estivesse dando um aviso “vou te pegar na saída”. Fui descobrir a mensagem alguns dias depois, na sala da diretora, com minha mãe explicando que por causa da carta eu estava com medo de ir para a escola.
“Mesmo você não me querendo mais, vou te amar para sempre”. Um coração com uma lágrima dentro.
Uma semana depois, ele estava casado com outra menina. E eu voltei à minha rotina de trocar papéis de cartas:
– Posso. Posso. Mais ou menos. Não posso. Posso.
– Você pode este brilhante?
– Ahã
– Uau!
E eu, com perfume de alfazema, achando graça na ingenuidade das meninas que ainda gostavam de papéis de carta sem declarações de amor.

ACONTECEU COMIGO: Shana Tova

Dentre os privilégios de ser um judia brasileira está o fato de genuinamente usufruir do sincretismo e comemorar duas vezes o ano novo.

Eu como maçã com mel para o ano ser doce e lentilhas, para que seja farto. Passo ouvindo o shofar na sinagoga e pulando sete ondas na praia. Rezo em um com característica essencialmente introspectiva e festejo noutro, dentre música alta e fogos de artifício.
E de mais especial, tenho duas oportunidades de refletir, recomeçar, renovar expectativas e listar novas – e antigas – decisões.

Que os dias que antecedem 5776 sejam especiais, repensando nossas atitudes e desejando amor, doçura e paz, paz, paz.

Shana Tova Umetuka!
Feliz novo ano!