INSPIRAÇÃO: “Ninguém no mundo poderia nos dizer o que ele seria capaz de fazer”

“Ninguém no mundo poderia nos dizer o que ele seria capaz de fazer. Ou não. Iria falar, brincar como as outras crianças, se alfabetizar, namorar, dirigir, ir pra faculdade, casar?”

Ter filhos é descobrir um novo universo cheio de amor e risos, mas também repleto de novas preocupações e prioridades. Claudia Zirbes, mãe de duas meninas, conhecia bem estas mudanças e com a chegada do filho caçula, já tinha a experiência e tranquilidade para percorrer estes caminhos. Ao menos, era o que ela acreditava.

Em seu primeiro ano de vida, Guilherme desenvolveu as habilidades de sugar, firmar o pescoço, virar, sentar e engatinhar. Era sorridente, dormia e se alimentava bem. Logo começariam as palavrinhas.
Aos quinze meses, a ausência de fala começou a preocupar. Aos vinte e um, com outros sintomas, ele foi encaminhado para a neuropediatra. E diagnosticado com autismo. “O Gui não demonstrou atenção compartilhada na idade esperada. Hoje entendo que este é um dos marcadores precoces do autismo, possivelmente o mais importante. E diz respeito ao desenvolvimento do nosso cérebro social. São aquelas habilidades que fazem o bebê ser capaz de comunicar mesmo quando ainda não fala palavras claras, pois ele aponta para algo do seu interesse e olha pra você para certificar-se que você está vendo, além de passar a exibir outros comportamentos tipicamente sociais do ser humano: olhar para onde apontamos, dar tchauzinho, começar a imitar os outros ou trazer objetos pelo simples prazer de mostrar para os pais”.

A partir deste momento, foram invadidos por um novo e assustador universo onde ninguém é poupado. Iniciaram uma verdadeira maratona de consultas, avaliações e encararam a lacuna de um caminho concreto e seguro a ser seguido. Mesmo a família tentando ser resiliente, a falta de um diagnóstico claro não ajudava em nada assumir a condição de Guilherme. “Afinal, assumir o que? Aceitar o que? Se ninguém te diz nada concreto. Uns diziam que podia ser outros que tinham certeza que não era. Somente após os quatro anos e com uma intervenção mais organizada, Gui começou a oralizar as primeiras palavrinhas e nós começamos a viver com mais leveza a nossa vida com o autismo”.

Claudia diz isso com a segurança de quem teve a vida devastada por medos e incertezas e pelo luto dos sonhos e expectativas depositados no filho caçula. “O autismo costuma impactar as famílias de forma mais intensa do que muitas outras condições até mais graves, o que é explicado pelo diagnóstico lento e inconsistente, pela dificuldade de encontrar intervenção adequada, pelo fato de ter de lidar com muitos profissionais simultaneamente (e que na maioria das vezes não se entendem), pelas discrepâncias entre a aparência física sem alterações da criança e seu comportamento atípico, pela ambiguidade dos sentimentos que alternam entre esperança, raiva e impotência, pela pressão de amigos e familiares para tentar toda e qualquer nova técnica – ou benzedura – que surge, mas principalmente, por todo o preconceito que ainda insiste em existir na nossa sociedade. Desta forma, o filho é o autista, mas o sentimento de exclusão é muitas vezes inexorável à família”.

Foi necessário aprender a lidar com o incerto e a traçar planos em passos pequenos. Significou aprender a lidar com o sofrimento, manejar a dor, transformar em crescimento o que parecia sufocante. Estudar. Dialogar. Se espiritualizar. E realizar uma completa imersão na forma como alguém com autismo experimenta o mundo. “Só assim conseguimos estabelecer uma melhor conexão com eles que os respeitem, mas que também os desafiem para a vida”.
Claudia hoje mantém no Facebook a página Autismo e Possibilidades e integra o Instituto Autismo e Vida, formado por um grupo de pais que viu a necessidade de disseminar conhecimento e diminuir o preconceito.

(Fonte: Arquivo pessoal)

(Fonte: Arquivo pessoal)

A mudança, aparentemente tão cruel, também trouxe à família de Claudia uma nova perspectiva sobre a vida. Ela explica que filhas certamente sofreram com a ausência, tristeza e a raiva que invadiu a casa. Mas conheceram mais sobre seus pais e sobre elas próprias. Sobre fraquezas, limitações, dores e fracassos. Sobre poder, amizade, união e capacidade de superação. Aprenderam juntos que sofrer faz crescer. E a fazer com que pequenos desfrutes sejam alegrias memoráveis.

“Minhas filhas aprenderam a emprestar suas vozes para lutar contra qualquer tipo de preconceito. São engajadas socialmente. Aprenderam a calçar os sapatos dos outros. Falam sobre autismo com propriedade. Defendem os excluídos. Tem uma causa por que lutar e levam a mensagem adiante. Tem valores que poucas adolescentes têm. Orgulham-se da família. Orgulham-se do irmão. Ajudam-nos com o Gui. Aprenderam a ver beleza onde quase ninguém vê. São sinceras. São reais”.

Claudia as chama de heroínas.
Sorte da sociedade que aprender a inspirar-se em heróis reais.

(Fonte: Arquivo pessoal)

(Fonte: Arquivo pessoal)

INSPIRAÇÃO: Ela voltou a acreditar em si através de sua arte

A colombiana de Cali, Karen Sander, chegara aos Estados Unidos com o sonho de estudar piano e composição. Era 1980 e ela estava matriculada na prestigiada Berklee College of Music, em Boston. Mas pouco tempo depois, forçada a abandonar os estudos em função de uma cirurgia na mão direita, decidiu seguir seu caminho cursando engenharia do som na mesma universidade. Até que novamente, o acaso bateu à sua porta: Karen descobriu-se grávida da única filha.

Sua maior preocupação passou então a ser o sustento da família como mãe solteira. Abandonou a trajetória inicialmente planejada para, ainda jovem, trabalhar como recepcionista no hospital infantil da cidade. Ambiciosa, passou a ser constantemente promovida: de secretária a coordenadora de vendas e marketing em diversas corporações dos Estados Unidos. Com o espanhol como língua materna, trabalhava em departamentos focados na América Latina e logo percebeu que sem um diploma, ficaria estagnada. Decidiu, assim, voltar a estudar. Foram tempos difíceis, com uma filha pequena – que às vezes a acompanhava nas aulas – e o trabalho necessário para o sustento das duas. Mas em poucos anos, Karen estava formada em Comercio Exterior, além do mestrado na mesma área, sempre com notas altas e honras, tamanha sua dedicação.

Com o passaporte para um trabalho mais valorizado e uma menina de treze anos, ela decidiu passar um período na Colômbia. Era no país em que estava sua família e onde ela gostava de passar um tempo antes de tomar as decisões necessárias para seguir adiante. Com um bom emprego, viveu lá por dois anos até a filha, saudosa do país que era seu lar, convenceu-a a voltar. A carreira de Karen começava a deslanchar.

Quando sua menina estava prestes a entrar na universidade, Karen, que já tinha cargo de vice-presidente além de lecionar na universidade que frequentara, decidiu abrir a própria empresa de marketing e desenvolvimento empresarial em Washington, DC. Sua vida era focada no trabalho e na preocupação em garantir uma boa base financeira à filha.

A esta altura, com uma vida extremamente confortável – tinha casa no melhor bairro da cidade, carro e viagens – sua filha estava estudando em Boston e nada mais passou a fazer sentido. Sua casa estava vazia e ela preenchia esta sensação trabalhando cada vez mais. Oito horas transformaram-se em dez, doze, dezesseis, dezoito, até que tudo começou a ruir. Chegava em casa à meia noite, dormia três horas para acordar e trabalhar em home-office até o momento de seguir para o escritório. Karen começava a entrar em colapso, sentia seus nervos à flor da pele, sem entender o porquê. Até que, em pouco tempo e após buscar opinião de diversos médicos, foi diagnosticada com transtorno bipolar. As medicações começaram. A doença intensa foi uma bola de neve que acabou por destruir sua carreira. Nos momentos de lucidez ela tentava continuar seu trabalho na universidade e na empresa, até que, após quatorze eletrochoques necessários para o tratamento de uma depressão profunda, ela perdeu a memória a curto e longo prazo. Já não podia lembrar como realizar tarefas básicas, como uma pesquisa de mercado ou um plano de negócios.

Com a filha formada e já trabalhando, Karen decidiu voltar à Colômbia onde procurou por novos médicos que confirmaram novamente o diagnóstico. Neste momento, sem condições de seguir adiante na carreira e muito doente, pediu ajuda à mãe. Como pintora, ela abriu novas portas para filha.

(Fonte: Arquivo pessoal)

(Fonte: Arquivo pessoal)

Quatro anos passaram-se desde que iniciou esta nova trajetória. Hoje, Karen já organizou sete exposições – uma delas no Museu do Louvre, em Paris – ganhou prêmios e participou de publicações. “Continuo lutando contra a doença, mas aproveito a oportunidade que Deus me deu de continuar trabalhando e sendo produtiva”.
No início, ela não imaginava que pintar fosse preenchê-la. Sentia falta da Karen que foi, mas já não podia mais lutar contra a que era agora. Apesar de sentir falta da independência financeira e dos confortos materiais, ela voltou a acreditar em si através de sua arte. “Já não pergunto ‘por que eu’, mas eu pinto com a convicção de que preciso aprender com tudo o que passei”. Com uma vida pacata e mais tempo para dedicar-se à família e à mãe, que já tem oitenta anos, ela decidiu render-se ao seu destino.

(Fonte: Arquivo pessoal)

(Fonte: Arquivo pessoal)

Quando disse à Karen que o título desta coluna era inspiração, ela me presenteou “Obrigada, Nurit. Ninguém planeja que sua vida seja inspiradora, mas eu espero profundamente que minha história possa tocar a vida de quem esteja passando por alguma dificuldade”.
Compartilhar é permitir ser tocada e tocar através da inspiração. Obrigada a você, Karen.

INSPIRAÇÃO: “O que a memória ama fica eterno”

(Por: Nurit Masijah Gil)

A primeira impressão, entre feição e palavras, é a de uma mulher doce. Mas aos poucos, fica fácil constatar que acima de qualquer característica, ela é dona de uma força imensurável, estampada na sinceridade e transformação de quem viveu a dor mais temida por qualquer pessoa que conheça o amor.

Claudia Petlik é mãe de Anna Laura, Arthur e Felipe. Anna, Claudia ama à distância.

(Fonte: Arquivo pessoal)

(Fonte: Arquivo pessoal)

Após um acidente doméstico ocorrido em maio de 2012, quando Anna tinha três anos de idade, ela e o marido Rudi, na busca por forças para continuar e desejando encontrar algum sentido na perda, seguiram numa viagem – já anteriormente planejada – a Israel. O carinho dos familiares que vivem lá e a mística do lugar, eles sabiam, só poderiam ajudar. E foi neste contexto religioso que encontraram motivação para tocar um projeto cheio de amor. Segundo o judaísmo, religião do casal, ações positivas em nome da pessoa que faleceu ajudam a elevar sua alma. Nascia assim, o Anna Laura Parques Para Todos (ALPAPATO).

 

Os parques, inspirados num projeto semelhante que conheceram no país, foram desenvolvidos para integrar. Seus espaços são repletos de recursos lúdicos pensados para que crianças com necessidades especiais possam brincar de forma segura e junto às demais, possibilitando a troca ao compartilharem as mesmas experiências, a mesma alegria. Através deles, Claudia e Rudi promovem a acessibilidade social e sedimentam o caminho que conduz a uma sociedade sem preconceitos.

(Fonte: annalaura.org.br)

(Fonte: annalaura.org.br)

(Fonte: annalaura.org.br)

(Fonte: annalaura.org.br)

Três parques já estão prontos e os próximos estão em planejamento e definição de locais.

(Fonte: Arquivo pessoal)

(Fonte: Arquivo pessoal)

Os projetos em nome de Anna são vividos juntos pelo casal (além dos parques, estão construindo uma biblioteca num centro de convivência árabe-judaico em Israel e planejando uma ONG que ajude pais que perderam seus filhos e não têm condições de pagar pelo tratamento), mas Claudia ressalta a importância de tudo que ajudou a elaborar seu luto de mãe. Falar sobre Anna, discorrer sobre morte, amor, saudade, vazio, sobre a maior dor de todas, mas especialmente, quebrar o estigma do silêncio que existe em torno de crianças que partiram. Claudia gosta de contar a história da sua menina. “Falar e escrever ajudam a ressignificar um vínculo rompido, a organizar e entender o sentido das coisas. Cada um encontra sua forma e tempo para isso, mas sempre digo que dor compartilhada é dor diminuída. Falar é libertador”. Ela entendeu que, não tendo mais como manifestar seu amor físico e de cuidados como mãe, precisava aprender a amar sem toque. “É uma forma diferente, mas ainda é amor. O que a memória ama fica eterno”.

Anna Laura é a filha mais velha de Claudia e Rudi. Quem tem filhos sabe como esta chegada transforma ao iniciar uma família e uma vida cheia de alegria e descobertas. Em sua breve passagem, Anna preencheu seus pais com amor incondicional. Agora, em nome dela, eles transformam através do amor.

(Fonte: Arquivo pessoal. Desenho de Patricia Vitali)

(Fonte: Arquivo pessoal. Desenho de Patricia Vitali)

Quer ajudar a viabilizar o parques na sua cidade? Eles são financiados pelo casal e o objetivo é que sejam construídos quatro ao ano em lugares onde haja demanda de locais acessíveis de lazer abertos ao público, somado a apoiadores que viabilizem sua manutenção. Para saber mais e entrar em contato, acesse: http://annalaura.org.br.

INSPIRAÇÃO: Não precisamos esperar que algo chegue ao limite para mudar nossas vidas

(Por: Nurit Masijah Gil)

Sempre contestadora, ávida por respostas e sem tolerar injustiças, Patricia Wagman sabia, desde o início da adolescência, que seria advogada. A inclinação para o Direito Criminal também estava diretamente ligada aos valores por ele tutelados: vida, liberdade e honra.

Depois de estagiar em dois escritórios da área civil, comecou em 1995 a trabalhar em um escritório de renome na área penal. Neste ramo os escritórios são pequenos, altamente especializados e personalizados. À época, a estrutura era de três sócios e três estagiários. E ali, encontrou-se. Tinha contato direto com os sócios – com quem aprendia diariamente – fazia acompanhamento processual nos fóruns,  nas delegacias, e nos Tribunais, redigia todo tipo de petição, participava das reuniões com os clientes, audiências, e depoimentos em delegacia.

(Fonte: Arquivo pessoal)

(Fonte: Arquivo pessoal)

No final de 1997, passados dois anos e meio da contratação, formada e aprovada no exame da OAB, conquistou sua primeira vitoria profissional como o único caso de efetivação na história do escritório até aquele momento, para doze anos e muita dedicação depois, tornar-se advogada associada, com completa autonomia e responsabilidade, tocando paralelamente mais de uma centena de casos.

 

Até que a Patricia advogada ganhou outro papel especial: o de mãe.

(Fonte: Arquivo pessoal)

(Fonte: Arquivo pessoal)

Na época, achou que não conseguiria ficar quatro meses afastada do trabalho, mas, para sua surpresa, ficou. E cinco. Foram meses de total e exclusiva dedicação ao filho e em que até pensou em parar de trabalhar, o que, para sua sorte, não fez: durante sua licença, ela e o marido separaram-se e foi o fato de ter um ofício que amava e uma rotina de trabalho, que a permitiu manter-se lúcida e forte para o filho. “Foi difícil equilibrar tudo, mas a verdade é que o fato de estar trabalhando me ajudou a não pirar”.

 

E ela jamais imaginava-se fora do escritório. “Outro dia, revendo um trabalho que fiz há três anos me deparei com a seguinte pergunta ‘Onde você se vê daqui há 5 anos?’ e respondi ‘No mesmo local” .

Mas as coisas mudaram em pouco tempo.

Há três anos, em razão de diversos acontecimentos negativos, iniciou, interna e inconscientemente, um processo de transformação e preparação para sua saída do escritório. Quando deixou de admirar a pessoa com quem trabalhava, não via mais razão para continuar. Mas, racionalmente, prevalecia a insegurança em sair da zona de conforto e recomeçar sozinha, sem garantia financeira.

Divorciada e com um filho pequeno, segurou o ímpeto acreditando que as coisas iriam mudar. Mas após uma discussão com o sócio e amigo, em outubro de 2014, criou coragem e deu seu grito de liberdade.

“Do dia para a noite minha vida mudou: não tinha emprego, não tinha um parceiro para segurar as pontas, tinha quase quarenta anos e um filho de oito. Estava assustada, pois o escritório sempre tinha sido meu porto seguro, e insegura quanto ao futuro – não só profissional, mas também financeiro”. Só que ao mesmo tempo, tinha uma sensação de alívio, uma admiração pela coragem de virar a mesa e muita vontade de recomeçar.

Três dias depois da saída, juntamente a outra advogada recém egressa do mesmo local, que optou por acompanha-la nesse novo desafio, recomeçou, agora com seu escritório.

“O lado positivo disso tudo é que agora trabalharei arduamente para mim mesma e não mais para terceiros. Não ficarei mais à sombra de um nome conhecido, pois tenho a oportunidade de fazer meu próprio”. Os contras, ela acredita estarem relacionados à questões práticas, pois tem que, ao mesmo tempo, prospectar cliente, trabalhar, garantindo a excelência do serviço prestado, e administrar a empresa.

A verdade é que Patricia ficou acomodada por muitos anos e hoje arrepende-se. “Aprendi que não podemos nos esconder atrás dos nossos medos para manter uma situação que, aparentemente, nos traz segurança. Não precisamos esperar que algo chegue no nosso limite para tomarmos uma decisão que mudará nossas vidas”.

(Fonte: Arquivo pessoal)

(Fonte: Arquivo pessoal)

“Afirmo por experiência, sempre há o lado bom ainda que no momento não consigamos enxerga-lo. Todas as escolhas que fiz, certas ou erradas, me trouxeram até aqui. Sou realizada com minha trajetória.”

E os frutos, longe de serem somente financeiros, ela já começou a colher.

INSPIRAÇÃO: Seja marginal, seja herói

(Por: Nurit Masijah Gil)

O plano estava pronto: cursar medicina, encontrar um bom emprego e caminhar sempre em linha reta, como havia sido condicionada.
Até que, ao invés de prestar vestibular, Gabriela Malafaia arrumou as malas e foi viver um período na Austrália e Nova Zelandia. Ela sabia que havia algo por descobrir. E entendeu, ao apaixonar-se por artes e pela filosofia da yoga, que precisava mudar seu rumo.

Voltou direto para a Faculdade de Artes Visuais na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) disposta a respeitar sua vocação e em 2011, seguiu com uma bolsa de estudos para a Universidade de Lisboa. Foi quando tudo começou a fazer sentido. Lá, a experiência na arte era completa com a união entre a Faculdade de Belas Artes e a de Educação. Ao experimentar in loco diversas metodologias de ensino – no país que é berço da Escola da Ponte – entendeu que a paixão pela escultura lhe abrira as portas para o amor pela educação.
E a menina que havia sido expulsa de um dos mais tradicionais colégios de Porto Alegre – apesar de boa aluna e líder de turma – por “não conseguir controlar seus impulsos”, percebeu que tinha era a alma livre. E que respeitar os impulsos de cada pessoa, fazendo-a despertar seus potenciais, deveria ser papel essencial da arte de educar.

Fonte: Arquivo pessoal

Fonte: Arquivo pessoal

Disposta a quebrar paradigmas, Gabriela voltou e procurou emprego na Perestroika , a incrível escola de atividades criativas. Lá, foi uma das idealizadoras do curso NOVA, de tendências de educação e adquiriu know-how em provocar nos profissionais de educação indagações que precisam ser discutidas e a construir novas formas de pensar o ensino.

Hoje, Gabriela trabalha no Colégio Farroupilha, em Porto Alegre, onde foi contratada como a artista que respira educação. Lá, responsável pela área extracurricular, criou uma agenda para propiciar novas experiências aos alunos do colégio em três pilares vida, criatividade e bem-estar. Mas seu projeto mais inspirador é o ‘Professores Inquietos‘ – desenvolvido junto á Tiago Schmitz – escola com cursos criativos para professores, como o Inteligência Coletiva, que reuniu 250 profissionais em 2014. “Inquietação é liberdade questionando os modelos existentes para que novos surjam. É acreditar que existe mais de um caminho. É movimento, criatividade, imaginação, transformação.”

Para entender os anseios dos educadores, eles realizam pesquisas com as quais embasam os cursos. “Existe, claro, certa resistência e, ao mexer na zona de conforto dos profissionais, usamos criatividade e um viés de sensibilidade para fazê-los perceber que apenas mudamos o mundo quando mudamos a nós mesmos”.

Fonte: arquivo pessoal

Fonte: arquivo pessoal

Ela cita como exemplo um dos cursos, em que organizou uma tarde para que todos velejassem em equipe. Ao chegarem no local, cada aluno recebeu as instruções que deveriam ler e em seguida, partir para a empreitada. “Uma aluna não conseguia de jeito nenhum executar a função que lhe havia sido determinada e escutava do skyper que deveria ler novamente as instruções. Ao final, compartilhou conosco que nunca mais diria para um aluno que lhe procurasse por não entender a matéria para ler novamente o capítulo, pois isso é apenas frustrante. Quando não se entende, é necessária uma nova forma de compartilhar a informação”.

Gabriela protagonizou uma microrevolucao na educação e entendeu em profundidade a frase de Hélio Oitica, que hoje embasa sua trajetória: “Seja marginal, seja herói”.

Mas sua alma é de artista, que precisa criar. E agora é hora de mudar de rumo, revolucionar em uma nova história que lhe aguarda à beira mar, em Santa Catarina. Seja heroína, Gabriela.

(Fonte: Arquivo pessoal)

(Fonte: Arquivo pessoal)

INSPIRAÇÃO: Ao mudar seu universo, ele passou a transformar o de milhares de pessoas

(Por: Nurit Masijah Gil)

Atuando há treze anos na área de marketing com uma carreira ascendente e bem sucedida, Edgard Barki começava a sentir-se desconfortável na trajetória executiva. Como sempre gostou de estudar, tomou coragem e mudou o rumo profissional, partindo para a área acadêmica com um mestrado em marketing, área em que já acumulava grande experiência.

Foi quando um orientador – que teve grande influência em sua vida – iniciou uma pesquisa sobre baixa renda, a qual Edgard integrou.

Encantou-se.

E imergiu neste universo.

Hoje, como professor com dedicação exclusiva à FGV-EAESP, é um dos grandes especialistas em negócios sociais, além de coordenar um mestrado profissional que tem uma dupla titulação com universidades estrangeiras e ser conselheiro do Instituto Coca-Cola e da Artemísia (ONG pioneira em gerar negócios de impacto no Brasil).

Após estudar vários anos, Edgard afirma que há uma lacuna em relação ao trabalho realizado com mercado de baixa renda, onde ainda foca-se muito em ‘como vender’. Para ele, as empresas precisam começar a gerar impacto e inclusão social nesta realidade e é esta a visão que pode ser propulsora de mudanças significativas. “Vejo uma nova geração ativa e com força para repensar a forma como as coisas são feitas no mundo dos negócios. Por isso, acredito que é possível fazer diferente. ”

Uma das disciplinas que leciona tem o objetivo de oferecer aos alunos uma experiência diferenciada. Jovens da GV em busca de uma nova perspectiva fazem uma semana de imersão com jovens de comunidades de São Paulo, onde todos trabalham juntos. Já houve com esta parceria, por exemplo, a criação de três apps para gerar impacto social em Heliopolis, além do projeto de uma meia maratona oficial entre Heliopolis e Paraisopolis, comunidades distantes 20km.

Edgard também está desenvolvendo uma incubadora para novos projetos em Heliópolis e o primeiro deles, o Conexão Heliópolis, surgiu após conversas com os jovens da região sobre como melhorar a comunidade. “Será um serviço a ser vendido que permitirá a indivíduos de outras realidades conhecer as riquezas e cultura de Heliópolis. Nele, as pessoas passarão dois dias conhecendo a comunidade e participando de duas oficinas oferecidas por jovens da região: uma de capoeira e outra de Hip Hop, que representam um pouco da cultura existente por ali.”

Edgard Barki

(Fonte: arquivo pessoal)

Trabalhar com esta realidade e ensinar tantas novas possibilidades de fazer diferente, tiveram um grande impacto pessoal em Edgard – que aprendeu a repensar as relações entre indivíduos e organizações, especialmente com a UNAS (Associação de Moradores de Heliópolis), onde o esforço que é feito pelo bem comum.

E é esta visão humanista que ele busca ensinar aos futuros executivos: para gerar lucro, é preciso transformar.

Edgard sentiu-se desconfortável e foi em busca de realizações. Mudou seu universo e com ele, vem transformando o de milhares de pessoas.

INSPIRAÇÃO: O que define sua liberdade? Viver sonhando com ela ou escolher praticá-la a cada instante da vida?

(Por: Nurit Masijah Gil)

Pular de bungee jump, viajar pelo mundo, passar um período sabático em outro país, ter filhos após os quarenta, não ter filhos, rodar o mundo com crianças, amar quem bem entende, viver sozinho, sair de casa, mudar de vida, fugir da dieta, beber vinho às três da tarde, cantar no meio da rua, chorar em público, escancarar sentimentos. O que é liberdade para você?
Para Marcos Bauch, que já mochilou na Nova Zelandia, viajou de carro até Machu Pichu, mergulhou em Bonito, saltou de pára-quedas em Boituva e tem como meta conhecer o mundo inteiro, liberdade é uma forma de encarar a vida.

(Fonte: Arquivo pessoal)

(Fonte: Arquivo pessoal)

Nascido com hemofilia (doença genética relacionada à coagulação sanguínea) numa época em que o tratamento era muito caro e com grandes chances de contaminação em transfusões, ele não teve – até os 26 anos – acesso aos cuidados profilálitocos da doença, o que ocasionou as artropatias ou “endurecimento das articulações” nos seus joelhos e cotovelos. Marcos usa muletas desde pequeno, mas isso nunca o impediu de subir em árvores e explorar a natureza.

Era 1988 quando seus pais mudaram-se para a Nicarágua com mala, cuia e três filhos a tiracolo. Seguiram-se três anos em que a família viajou bastante e, mesmo após este período, as viagens seguiram como uma tradição familiar “Tenho muito respeito e admiração pela criação que meus pais me deram. Mesmo com minha deficiência física, sempre me incentivaram a tentar levar uma vida normal.”

Mas foram nos episódios de dor, quando ficava semanas inteiras deitado na cama,
machucado, fazendo as provas da escola em casa e tendo aulas particulares com sua mãe, que ele tirou os aprendizados que orientariam sua visão de liberdade. “Se, por um lado eu não conseguia dormir de tanta dor, por outro, desenvolvi uma paciência incrível com o meu corpo e aprendi que não dá pra querer que as coisas aconteçam logo. Se eu tinha que ficar semanas deitado depois de me machucar, o momento no qual eu me curava e podia brincar de novo era sublime. Sempre me senti cheio de vida nessas horas. Se durante 26 anos eu não podia fazer tudo aquilo que queria por medo de me machucar. Ter acesso ao tratamento profilático representou uma liberdade inimaginável.”

(Fonte: Arquivo pessoal)

(Fonte: Arquivo pessoal)

Foi após esta idade, com tratamento e sem medo de machucar-se – o que pode ser fatal para um hemofílico – que Marcos passou a carimbar seu passaporte de grandes experiências. Só que mesmo para quem na Nova Zelandia realizou uma prova de maratonas aquáticas, mochilou pelo país e saltou de Bungee Jump, a maior aventura chegou com a paternidade. Em 2014, com o nascimento de Miguel – apesar da preparação para receber alguém que seria totalmente dependente dele e da esposa Marília – a vida mudou completamente. “Os primeiros meses foram super cansativos e me mostraram, sem maquiagem, o quanto eu era auto-centrado e dependia de coisas externas pra me sentir animado. É que o timing de um bebê é diferente da vida atribulada, agitada e animada que levamos no dia-a-dia, né?”.

(Fonte: Arquivo pessoal)

(Fonte: Arquivo pessoal)

Mas ao invés de – como acontece como a maioria de nós – sentir-se preso à mudança de rotina, Marcos aplicou os aprendizados de sua história. “Liberdade não é necessariamente fazer o que se quer. A forma de encarar as situações da vida é o que efetivamente define sua liberdade. Se a criança chora de noite eu posso escolher ficar irritado ou posso olhar aquilo de um ponto de vista mais amplo e ir acudir com tranquilidade. Posso escolher a alegria em vez do cansaço, a paciência em vez da raiva, a generosidade em vez da carência e o bom humor em vez da irritação. Essa é a grande liberdade, poder escolher.”

Marcos Bauch 7

(Fonte: Arquivo pessoal)

E respeitando estas escolhas e a leveza perante todas as situações que fogem ao nosso controle com a chegada de um filho, Marcos, Marília e Miguel já fizeram uma roadtrip por Diamantina, viajaram para a Chapada dos Veadeiros e para Pirenópolis, tomando banhos de cachoeira e embalando o pequeno nos solavancos das estradas de terra.

O que define sua liberdade: Viver sonhando com ela ou escolher praticá-la a cada instante da vida?

INSPIRAÇÃO: “Ser gay não é um estereótipo específico, é uma miríade de possibilidades de viver de acordo com o que somos”

(Por: Nurit Masijah Gil)

Educado dentro de uma religião tradicional, desde cedo sua mãe mostrava que o mundo era maior. Judeu, Fernando Sendyk foi estudar em um colégio de padres, o que é uma quebra enorme para quem vive dentro de uma comunidade fechada. O ambiente, no entanto, não deixava de lhe apontar o quanto ele era diferente: não seguia a religião do colégio, era mais baixinho que os colegas e uma outra sensação – que ainda não conseguia denominar – de não fazer parte daquele mundo, por maior que ele parecesse até o momento.

(Fonte: arquivo pessoal)

(Fonte: arquivo pessoal)

Ainda no colegial e já com consultório pronto o aguardando na clínica odontológica do pai, optou pela área de biológicas a fim de seguir fielmente o plano inicial. Até sua irmã ter uma dor de dente no meio das férias. A tal pedra capaz de desviar caminhos está geralmente nas bifurcações mais banais, basta prestar atenção. Fernando, o próximo dentista da família, seguiu para ajudar o pai na consulta e, no momento em que sua irmã abriu a boca, ele teve certeza de que o futuro começava a mudar. No retorno às aulas migrou imediatamente para a área de humanas, respeitando a fascinação que sempre teve por casas. Hoje, olhando para trás, entende que esta mudança foi a forma que ele encontrou de realizar sua quebra.

Entrou na faculdade de arquitetura e, com a namorada Renata – com quem já fazia planos de casamento – participou de um grupo de estudos a Barcelona, cidade que o fascinaria. Ali, o mundo lhe pareceu enorme e ao enxergar pela primeira vez homens bem vestidos andando de mãos dadas sem causar qualquer estranhamento soube, ainda sem sua ficha ter caído completamente, que haveria uma avalanche pela frente. Na volta, foi a mãe de Renata quem sugeriu que ele frequentasse a terapia. Tamanha era a importância de entender aquele momento, que Fernando resolveu utilizar todo o seu salário e seguir o conselho.

E entendeu: acabou o namoro, terminou a faculdade e viajou para Barcelona. Chegara a hora de escrever seu próprio roteiro.

Era 1989 e ser gay era um estereótipo depreciado e marginalizado no Brasil. Mas na Europa – e especialmente na cidade catalã – era, além de relacionar-se naturalmente com pessoas do mesmo sexo, descobrir um ambiente em que ele não sentiria-se estranho. Recém chegado, aproximou-se de um grupo de arquitetos brasileiros gays e em poucas semanas, conheceu um menino com quem passou a noite que o faria entender quem era e começar a mudar sua história.

“Hoje é difícil pensar nisso porque todos têm parentes e/ou amigos gays vivendo a mesma vida de todo mundo, com suas agruras e alegrias. Vemos gays por toda parte e de todas as formas. Não é um modelo específico, é uma miríade de possibilidades de como viver de acordo com o que somos sem ter que estar encaixado em um estereótipo específico”.

Alguns meses depois, conheceu o espanhol Andres, seu primeiro e grande amor e o trajeto pré-determinado, para sua sorte, ficou definitivamente para trás.

(Em Barcelona. Fernando, usando óculos de grau redondo e Andres, deitado. Fonte: arquivo pessoal)

(Em Barcelona. Fernando, de malha listrada e Andres, deitado. Fonte: arquivo pessoal)

No Brasil, apesar de seus amigos também comemoravam a descoberta, foi apenas quando decidiu retornar, quatro anos depois, já com o namoro em fase ruim e ambição profissional que previa conseguir consolidar na terra natal, que precisou enfrentar os pais após contrair uma DST e precisar utilizar o plano de saúde da família. Por mais aberta que tivesse sido a educação de Fernando, eles ficaram impávidos e tocaram a vida sem jamais voltar ao assunto. E ele respeitou.

Hoje, Fernando acredita que a sociedade aceita melhor as diferenças, mas é no meio dessa aceitação que encontram-se conceitos viciados e não é incomum ouvir de gente esclarecida, em cidades cosmopolitas, coisas como “tudo bem ser gay, mas prefiro que meu filho não seja”.

“É fundamental lembrar que estou aqui falando de definição sexual, mas o mesmo sistema viciado de conceitos não elaborados, impera – muitas vezes de forma mais forte e cruel – quando se trata de outras diferenças e especificidades: raciais, religiosas e ideológicas”.

Fernando é gay, arquiteto, judeu, paulistano e adepto de um estilo de vida saudável. E você, está vivendo de acordo com o que realmente é?

INSPIRAÇÃO: A história de milagres e lições de uma verdadeira artista da vida real

(Por: Nurit Masijah Gil)

Costumam dizer que conhecemos nossa verdadeira força nas adversidades. E foi nelas que Elza Kososki aprendeu lições, protagonizou milagres e arregaçou as mangas para vencer barreiras.
Profissional da área de vendas, ela diz que é uma artista em seu trabalho. Mas logo vocês entenderão que a arte dela é muito, muito maior.

(Fonte: Arquivo pessoal)

(Fonte: Arquivo pessoal)

SUA FILHA MAIS VELHA CHEGOU DE UMA MANEIRA MUITO ESPECIAL. PODERIA NOS CONTAR ESTA HISTÓRIA?

Depois de seis anos de casada e cansada de correr atrás de especialistas para conseguir engravidar, meu marido deu um basta na tentativa de termos um bebê. Fiquei frustrada demais, mas me conformei pensando que não era a vontade de Deus que fossemos pais.
Três meses depois, era domingo pela manhã quando um casal bateu em nosso apartamento com um bebê coberto por uma manta rosa. Ao abrir a porta, fiquei assustada, mas imediatamente soube o que seria.
Pedi que sentassem e corri para avisar meu marido. Eles nos contaram que aquela criança havia sido abandonada no hospital e logo abracei o bebê. Ao descobrir o rostinho coberto com a manta enxerguei os olhos azuis mais lindos que já tinha visto. Era uma menina encantadora, com cabelos ruivos. A minha Maria Carolina havia chegado de maneira imprevista e jamais imaginada. Foi o melhor presente que já ganhei em toda a minha vida.
Depois, naturalmente, vieram Felipe e Maria Fernanda. Minha família ficou completa.
Quando o Felipe chegou, a Carol já estava com dois anos e meio. Ela esperava eu amamentá-lo e depois vinha, deitava no meu colo e mamava. Isso aconteceu por três meses e serviu para nos tornar incrivelmente unidas.

VOCÊ É SOBREVIVENTE DE UM GRANDE ACIDENTE AÉREO. O QUE MUDOU NA SUA FORMA DE ENCARAR A VIDA APÓS ESTE EPISÓDIO?

Fomos morara no Sul do Pará em 1986. Foram quatro anos de muito aprendizado: clima, cultura, hábitos… Tudo diferente. A Carol tinha um ano quando nos mudamos e o Felipe nasceu lá.
Para ajudar financeiramente, ia para Manaus, na época “Zona Franca” e trazia eletrônicos para revender. E numa destas viagens, sofri o acidente.

Elza

(No dia 3 de setembro de 1989 um avião Boeing 737 da Varig realizava essa rota quando, por um erro de navegação cometido pela tripulação, três horas após a decolagem e já sem combustível, executou um trágico pouso forçado sobre uma região de selva localizada 60 quilômetros ao norte de São José do Xingu, Mato Grosso. Para os 48 passageiros e seis tripulantes, o desastre do RG 254 transformou-se num drama que se iniciou na noite de domingo, quando o avião caiu na selva, para só terminar na madrugada de quarta-feira seguinte – quando teve início a operação de resgate.
No acidente, 12 passageiros morreram. Todos os 42 sobreviventes sofreram ferimentos).

Eu tinha 32 anos e fiz várias descobertas. A primeira foi entender o quando Deus nos ama e a partir daí, meu modo de encarar a vida mudou radicalmente, minhas prioridades passaram a ser outras. Penso que deixei de ser preconceituosa em relação às pessoas e entendi que o sofrimento ao nosso redor precisa ser observado e, se possível, acolhido. Quando compartilhamos nossas dores e alegrias entendemos a dinâmica de viver e podemos realmente amar o próximo, não esquecendo que o próximo é aquele que está ao seu alcance.

VOCÊ PROTAGONIZOU UMA HISTÓRIA INCRÍVEL SOBRE COMO REALMENTE É POSSÍVEL AJUDAR

Ficamos na mata por três dias e uma das sobreviventes, a Regina, estava ajudando os feridos, além da busca por água. Eu estava muito machucada e não podia me locomover. Mas Regina estava com Ariadne, sua filha ainda bebê e com a queda do avião ela, que estava amamentando, acabou ficando sem leite. A criança chorava muito.
Pedi então para cuidar de Ariadne e para tentar acalmá-la, ofereci meu seio. Ela imediatamente começou a puxar muito. Chegou a doer, mas Ariadne se acalmou e passou grande do tempo mamando. Não havia leite: havia amor e a vontade de cuidar daquele bebê.

E AS PROVAÇÕES CONTINUARAM…

(Foto logo após o acidente. Fonte: Arquivo pessoal)

(Foto logo após o acidente. Fonte: Arquivo pessoal)

Após me recuperar fisicamente (realizei uma cirurgia de coluna pois havia uma miiase provocada por um mini escalpo na cabeça) e psicologicamente, veio a vontade, juntamente com meu marido, de retornarmos para casa, no Sul.
Voltamos para Coronel Vivida (PR), onde estavam meus pais. Não imaginava que, a partir daí, viveria grandes provações, desta vez financeiras. Considero que o acidente contribuiu para o fortalecimento na fé que nos permitiu enfrentar as dificuldades.
Quando chegamos, montei uma confecção com minhas irmãs. Para ilustrar, tínhamos lá um grande berço de família com rodinhas. Ali, a Fernanda e meus sobrinhos permaneciam para que pudéssemos trabalhar. Fabricávamos roupas maravilhosas e em poucos anos conquistamos o mercado de varejo em todo Brasil.
Mas então meu pai faleceu e a situação financeira da minha família ficou muito ruim. Não sabíamos, mas ele estava literalmente quebrado. Além de perder tudo ficamos com muitas dívidas e a confecção – que na época era a galinha dos ovos de ouro – quebrou. Neste caso fui movida pela emoção, não pela razão e misturei as coisas, usando o dinheiro da confecção para resolver os problema e dívidas deixados.

Mas ainda tinha a experiência adquirida na área de vendas. Através de um amigo querido, fui apresentada a um empresário de uma cidade vizinha e abracei um projeto de colocar uma nova marca no mercado de lingerie, novamente conquistei o mercado. Em 2008, conheci o diretor da Darling Confecções e lá trabalho até hoje, além de ser proprietária de uma loja de lingerie, a Muito Intima.
Mais mudanças foram necessárias. Fomos para Curitiba, minha terra Natal, a fim de melhor poder me locomover e facilitar minhas viagens pelo Brasil. Mas amo o que faço. Vender é uma arte e considero que neste quesito, sou uma artista.

Hoje tenho dois netos e um terceiro a caminho. Considero-me uma mulher vencedora.

(Com os netos. Fonte: Arquivo pessoal)

(Com os netos. Fonte: Arquivo pessoal)

INSPIRAÇÃO: Trabalhe com o que você gosta e tem talento para fazer

(Por: Nurit Masijah Gil)

Sabe quando da vontade de mudar as regras do jogo, virar a mesa, mas falta coragem? Conheça hoje a história da Shirley Hilgert, criadora e editora do blog Macetes de Mãe, que respirou fundo, tomou a iniciativa, deu o pontapé inicial e depois, percebendo que o caminho ia dar exatamente onde ela sonhou, não parou mais de desbravar. E escrever. E inspirar.

Macetes

Shirley com Léo e Caê (Crédito: Viridiana Brandão)

Depois de alguns anos vivendo em São Paulo, a gaúcha Shirley, formada em publicidade, relações públicas e especializada em Eventos e Marketing, estava infeliz profissionalmente como gerente de marketing em uma empresa de TI. Foi quando fez um curso de autoconhecimento e saiu de lá determinada a trabalhar com algo que amasse, utilizando seu trabalho para ajudar as pessoas. Só não sabia exatamente como fazer isso.

Mesmo assim, respirou fundo e pediu demissão para dedicar-se a procurar outro emprego. Até que, enquanto cumpria o aviso prévio, descobriu estar grávida. Teve a oportunidade de permanecer na empresa, mas preferiu manter sua decisão e aproveitar ao máximo a gestação. Nos primeiros meses, fez trabalhos manuais, ocupou o tempo, até que começou a sentir falta de produzir.
Como já mantinha um blog sobre leitura, ouvia de muita gente que deveria criar outro, sobre maternidade. Só que ela, sem nunca ter trocado uma fralda na vida, achava que não era seu caminho. Até que começou a ler, aprender e ter vontade de compartilhar as descobertas deste universo com outras mães de primeira viagem.
E assim surgiu, no sétimo mês de gravidez do Leonardo, o Macetes de Mãe, um dos mais influenciadores blogs sobre maternidade do Brasil, com 360 mil seguidores no facebook, 60 mil no Instagram, 126 mil no Pintest e 2,8 milhões de pageviews ao mês.

MUITAS MULHERES, APÓS A MATERNIDADE, PASSAM A TER VONTADE DE EMPREENDER NESTE UNIVERSO. AO CRIAR O BLOG, VOCÊ TINHA IDÉIA DE QUE ELE SE TRANSFORMARIA NUM NEGÓCIO OU IMAGINAVA QUE SERIA APENAS UMA ATIVIDADE PARALELA?

Jamais pensei que o blog fosse se tornar um negócio, não mesmo. Ele não foi criado com esse propósito, mas acabou caminhando para isso. O MdM (Macetes de Mãe) nasceu porque sentia vontade de compartilhar o que estava descobrindo com a maternidade e para mim, como comunicadora, sempre foi fácil encontrar conteúdo para mantê-lo atualizado. Claro que depois que o Leo chegou, o MdM ficou mais rico e variado, pois além das dicas práticas, entraram os desabafos, os textos mais intimistas e um tanto de assuntos que eu jamais me imaginei tratando publicamente.

Com o tempo, o blog foi crescendo, com grande número de visitas e redes sociais tornando-se fortes. Quando vi, tinha uma marca conhecida no universo materno e logo soube que não poderia desconsiderar. Assim, quando meu filho estava com quase um ano, conversei com meu marido e pedi para ele continuar segurando as pontas, assumindo os custos da casa, pois eu tinha a oportunidade de transformar o hobby em meu grande sonho: empreender, comunicar e tentar ajudar pessoas que estavam vivendo neste mesmo universo. Ele, sabendo do prazer que eu tinha em fazer o MdM, topou na hora. Me lancei na aventura de viver de blog, o que, para minha sorte, tem dado certo.

QUAL VOCÊ ACREDITA SER O DIFERENCIAL PARA DESTACAR-SE NUM UNIVERSO TÃO AMPLO?

Eu acho que a chave do sucesso é uma mistura de vários detalhes, mas um deles, considero a mais importante: fazer algo porque você ama e não esperando retorno financeiro. Quando você faz por amor acaba se dedicando mais, o resultado torna-se diferenciado e as pessoas percebem. Vale para qualquer negócio, mas no caso de um blog, isso é perceptível para leitoras e anunciantes, que vêem um trabalho de qualidade. É então que ele cresce e aparece.
Fora isso, considero importante estar sempre ligada na sua intuição, seu feeling e usar isso como fonte inspiradora para novidades e melhorias em seu negócio. E claro, ouvir e dar atenção aos leitores, afinal sem eles, o seu negócio não existe. De nada adianta você se dedicar horrores para fazer pesquisas e produzir bons textos se você não responde o contato de uma leitora, não tira a dúvida dela, não tenta entregar aquilo que os leitores querem. São eles que fazem um blog e sem dar a devida atenção, ele deixa, pouco a pouco, de existir.

E EFETIVAMENTE, TRABALHAR EM HOME OFFICE TE POSSIBILITA CONCILIAR TODOS OS SEUS PAPÉIS? COMO ESTÁ SUA ROTINA AGORA, COM DOIS FILHOS PEQUENOS?

Acho que trabalhar home office faz uma diferença danada na vida de uma mãe. Ajuda mesmo! Claro que nem tudo é perfeito, que a correria segue sendo insana, mas você tem mais liberdade para fazer seus horários. Se for necessário, você trabalha à noite para poder cuidar do filho que está doente de dia, ou deixa seu trabalho para outra hora para pegar o filho na escola e fazer um passeio gostoso com ele. Essa liberdade não tem dinheiro que pague e ela propicia uma maior equilíbrio na balança maternidade x profissão. Mas é claro que ela também tem seu custo, pois a gente acaba trabalhando muito mais, já que quase nunca desliga.
Com dois filhos, as coisas complicam mais, mas ainda é possível conciliar. Eu, por exemplo, não tirei licença maternidade na chegada do Caê, meu segundo filho, até porque esse período de recém nascido é uma fase muito rica e que me deixa cheia de inspiração. Conto com uma ajuda de uma pessoa na parte da tarde, consigo trabalhar e ficar com ele ao mesmo tempo. Ou quando estou sozinha, sem ajuda, aproveito os benefícios do wrapsling para deixa-lo dormindo juntinho a mim enquanto trabalho no blog (coisa que faço quase todas as manhãs).
Como o Leo vai para a escola e só o Caê está em casa durante o dia, não é tão complicado maternar e trabalhar, mas é desgastante, pois como eu disse, aquela fase de dedicação total à criança, que é o que a licença maternidade nos proporciona, com o Caê eu não tive. Mas também não reclamo. Essa foi uma escolha minha e sinto prazer em fazer o blog enquanto cuido dos meus pequenos.

VOCÊ TEM ALGUMA BLOGUEIRA PERSONAGEM QUE SEJA UMA REFERÊNCIA PROFISSIONAL?

Sinceramente, não. Tem algumas blogueiras que eu curto, leio, acompanho, gosto do estilo que escrevem, da seriedade do blog, do conteúdo que é compartilhdo. Mas não há uma única que se destaque, que seja uma fonte de inspiração. Há várias que eu gosto de acompanhar como gostaria inclusive se não tivesse o meu próprio blog, simplesmente como mãe e leitora.

ESTA COLUNA DO BLOG FALA ESPECIALMENTE SOBRE PESSOAS QUE TIVERAM CORAGEM DE VIRAR A MESA E IR ATRÁS DE SEUS SONHOS. QUE CONSELHO VOCÊ DARIA PARA QUEM QUER RECOMEÇAR E TRABALHAR COM O QUE AMA?

Essa é uma pergunta difícil. Para mim, o que funcionou foi começar pequeno. Muitas vezes, a gente não arrisca porque vê muita coisa envolvida, muita coisa a se perder: é o emprego que tem que abandonar, o investimento que tem que fazer e por aí afora. Mas se você começar algo em paralelo, por exemplo, sem abandonar seu emprego (eu abandonei porque queria procurar um novo emprego, antes de saber que estava grávida e não para criar o blog), sem um investimento inicial grande, acho que as chances de você dar o primeiro passo são maiores, pois você tem menos a perder.
Um exemplo do que quero dizer é o seguinte: Vamos dizer que você é advogada, trabalha num escritório mas sonha em largar tudo e fazer decoração de festa infantil. Você pode fazer festas de conhecidos por prazer no início e quando menos esperar, com o tempo, ver seu trabalho reconhecido e até procurado por outras pessoas. Afinal, tudo que é feito com amor, quando você realmente saber fazer, brilha por si só e acaba conseguindo se destacar. E então, ir trabalhando essa “nova profissão” em paralelo até que ela atinja um ponto que te dê segurança de largar o outro emprego.
Não sei se esse é o conselho ideal, se não seria melhor dizer largue tudo e mergulhe de cabeça, mas para mim funcionou começar aos poucos, sem pretensão de fazer do blog um negócio, até que ele cresceu por si só, conquistou seguidores e virou um negócio “sozinho”.
Ah, e outra dica aqui é sempre trabalhar com o que você sabe fazer. Com o que gosta e tem talento para fazer. Pois aí tudo se torna mais fácil e o resultado também tende a ser muito, mas muito melhor.