ACONTECEU COMIGO: Tira as mãos da minha coxa porque eu quero passar

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(Ou sobre atitudes patéticas em pleno século vinte e um)

Mulherzinha ou mulherão.
Feminismo estereotipado, daquele em que mulheres falam grosso e lutam por igualdade num mercado de trabalho masculinizado e que desconsidera sensibilidade não me agrada, se é que ainda existe. Contundência é uma característica, assim como espontaneidade, doçura, intuição e tantas outras que possuímos ou adquirimos ao longo da vida.

Sou vaidosa, pinto as unhas de vermelho, falo baixo e meu biotipo é frágil. Já cuidei dos meus filhos por anos em período integral e ainda hoje, não agendo qualquer compromisso que não encaixe-se à rotina deles. Asso bolos, cuido do meu marido, não banco minha casa financeiramente. Mas sou feminista.

Depois das mulheres – palmas – berrarem para conseguir um lugar ao sol e de tantos papéis serem embaralhados, percebemos que o tal estereótipo pode não caber na agenda da vida real. E finalmente, que feminismo possível é empoderamento pessoal. Só que não bastasse o caminho que percorre-se para atingi-lo, existem ainda obstáculos de um modelo que, de tão embolorado, deveria estar em desuso.

Patético do homem que usa de qualquer posição superior para tocar onde não deve. Pobre de espírito dos que não escutam nossa verdadeira voz. Infeliz dos que acreditam no machismo inabalável. E se, assim como eu, você aguarda a próxima encarnação para aprender a berrar e normalmente resume-se a chorar, chore. Atitude libertária não passa necessariamente por saber dar um tapa na cara, mas por ter coragem para sermos quem quisermos. Apesar da mão na sua coxa, apesar do cala a boca.

Se nos falta força para encarar a grosseria, isso não nos faz mais fracas. Força mesmo é não ficarmos escondida sob esta sombra. Já chorou? Enxuga as lágrimas e corre atrás da sua existência, seja ela qual for: como executiva de multinacional ou como mãe em tempo integral. Vivenciando-a com desejo, você será a maior das feministas. Empoderando-nos estamos livres para seguir o caminho que escolhermos.

Esqueça a figura de mulher forte que berra, mas papel secundário não é opção. Nem mulherão, nem mulherzinha. E se não conseguir berrar quando alguém que esqueceu de virar o século colocar a mão na sua coxa sem permissão, pede licença e levanta. Apenas assim, enquanto ele embolora, poderemos ser protagonistas da nossa história.

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CRÔNICA: Tempero à parte

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Cada pessoa utiliza seu método peculiar de relaxamento. Não vou criticar os adeptos do Rivotril sublingual afinal, eu mesma utilizo métodos pouco ortodoxos para deixar os pensamentos em slow motion – depois de abandonar anos de vida fumante, não abro mão da boa e velha dose etílica noturna. Mas acho interessante observar as formas mais criativas que cada um encontra para separar as obrigações do lazer.
Tem que mateie. Sim, verbo: eu mateio, tu mateias, ele toma chimarrão. Há os que espantam o stress levantando centenas de quilos em troca de suor e músculos. Tem quem leia ou escreva. Os que vão ao cinema e escolhem o filme (prática que desconheço há anos). Já ouvi falar de gente que só com sexo recreativo. Quem faça compras, escova, massagem. E os que utilizam métodos ainda menos ortodoxos que os meus.
Certa feita (desculpem, sempre quis começar uma frase assim), conheci uma moça que precisava sair do trabalho e apaixonar-se antes de voltar da casa. Pois é, batia o cartão e passava a buscar uma paixão. Lembro da noite em que apaixonou-se por uma escritora baiana, em plena sessão de de autógrafos na livraria da Alameda Santos. Entrou, pediu uma dedicatória, leu o livro inteirinho, voltou para casa, cozinhou com azeite de dendê e foi dormir. Às vezes, tinha que dar explicações ao marido:
– Onde estava até esta hora?
– Procurando uma paixão.
Vícios são vícios e ele a aceitava como sempre fora, apesar de certa frustração. Ela já tinha se apaixonado por tulipas holandesas, café gourmet do serrado, mostra de cinema russo e pasta americana para cupcakes. Uma vez, saímos para colocar o papo em dia após o trabalho. A certa altura, eu já bocejava e cogitava pedir a conta, mas ela ainda estava aflita: sem paixão, não tinha como relaxar. Releu o cardápio, buscou algo nas mesas ao lado. Nada. Saímos para uma volta no quarteirão. Uma companhia de teatro alternativa fazia uma performance no farol. Olhei entusiasmada para minha amiga: sem calafrios. Na esquina, o lançamento de um empreendimento imobiliário. ‘Quer parar?’. ‘Os sinos não tocaram’. Desistimos. Ela voltou para casa, já pronta para passar a noite em claro, com os pensamentos a mil. Mas neste dia, o marido a esperava na sala. Seu coração disparou de alegria e alívio: estava apaixonada, incrivelmente seduzida.
– Precisamos conversar.
Ela, louca por ele, escutou a história. Ele, por um viés da vida, conheceu uma escritora. Baiana. E estava apaixonado. Ela ofereceu cozinhar tapioca. Não era isso. Com acarajé e dendê. Não era fugaz. E ele partiu.
Já faz alguns anos isso. Ela buscou tratamento, recuperou-se de seu irônico destino e hoje não corre mais riscos. Sai do trabalho e segue direto para casa. Cozinha, assiste a novela e antes de dormir, um relaxante sublingual. Sem café do serrado, cinema russo ou dendê. Para que a vida siga como deve ser.

ACONTECEU COMIGO: 10 coisas que não acontecem só na sua casa

Na semana do Dia das Mães, a marca Marisol me convidou a listar algumas angústias da maternidade comuns a todos os endereços. Foi o jeito deles de convocar todo mundo a respirar fundo, relaxar e viver a Feliz Idade das crianças com mais leveza, brincadeiras e humor, que faz parte da proposta super bacana da marca.

E aqui esta a lita que fiz. Quem concorda?

10 coisas que não acontecem só na sua casa

1- Logo no início, descobrimos que puerpério não é uma espécie de molusco. É uma fase em que os hormônios resolvem fazer um baile de Carnaval em nosso corpo. A gente chora quando deveria estar sorrindo, jorra leite nos momentos mais impróprios e tem certeza de que não vai dar conta da maternidade quando sequer consegue cortar as unhas de um recém-nascido. Passa, ufa!

2- Acreditamos que nosso casamento já enfrentou todos os tipos de desafios, até ter filhos. Entre sutiãs beges, olheiras, despesas elevadas à oitava potência, um corpo que ficou com certas sobras, papos escatológicos e uma cama de casal que está mais para coração de mãe, conhecemos o verdadeiro “e foram felizes para sempre”: o da vida real.

3- Vamos enfrentar: nossos filhos, em algum momento, protagonizarão ataques de birra em locais públicos. Basta escolher se a melhor opção será encarnar a Super Nanny ou voltar correndo para casa.

4- Educar não é moleza: damos bronca quando temos vontade de rir, abraçar, afofar e quando gostaríamos de chorar, consolar, ninar.

5- Não é por falta de coordenação, mas incrivelmente passamos a morder a língua constantemente, permitindo o que em hipótese alguma era cogitado antes de resolvermos desconstruir na prática os comerciais de margarina.

6- Às vezes cansa. Dá vontade de passar uma semana sozinha em Paris, sem qualquer obrigação, tomando champagne às três da tarde. Pode cansar sim, ninguém é uma mãe pior por causa disso. Paris desacompanhada já é bem mais complicado.

7- Lembra daquelas mulheres mais velhas que adoravam falar de casa, rotina e filhos? Então, somos elas.

8- Não falta gente acreditando que sabe fazer qualquer coisa de uma forma melhor que a nossa quando o assunto é cuidar de filhos. O negócio é ignorar, afinal de contas, apenas os nossos beijos conseguem curar os machucados que eles têm na vida. Bem, ao menos enquanto forem crianças.

9- A gente se acostuma com a vida de cabeça para baixo e percebe, na verdade, que ela fica incrível sob esta perspectiva.

10- Tudo, tudo passa. E nos damos conta de que a pena é que passa rápido demais.

Para ler a matéria completa, clique aqui.

CRÔNICA: Cada coisa em seu lugar

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Foi só entrarem no carro:
– Você notou?
– Notei o que?
– Francisco, você me chamou onze vezes durante o aniversário. “Rose, o Rafa caiu”, “Rose, o Rafa quer fazer xixi”, “Rose, o Rafa pegou o brigadeiro do chão”. Custava ter interrompido sua conversa com os outros homens e me ajudado? É sempre assim.
– Rose, eu mal te chamei. Você passou a festa inteira pronta para qualquer intercorrência.
– Claro, que outra alternativa eu tenho?
– Como assim?
– Passo a vida cuidando, não tenho mais tempo algum para mim. Quando estou ausente, o mundo desaba.
– Ah é? Pois vamos ver.
Francisco – indignado, ferido, receoso, em pânico – sugeriu que ela fizesse um longo programa no sábado seguinte “Se o problema é esse, saia, sem medo de ser feliz”.
Rose – aliviada, desafiadora, receosa, em pânico – acenou concordando.
Mesmo com o pesar de utilizar o filho como cobaia para a aplicação prática do instinto paterno de Francisco, Rose agendou, pé, mão, corte, luzes, massagem, máscara facial, almoço, chá da tarde, cinema, happy hour, sarau. Divertiu-se de forma inusitada e voltou para casa levemente bêbada, cantarolando a música da borboletinha.
Ao colocar a chave na porta, inspirou, antecipando o triunfo. Três, dois, um. Silêncio. Como ninguém vinha recebê-la, entrou a procura da família. Almofadas no chão e poltronas do avesso anunciavam a tragédia.
– Olá?
– Oi amor – Francisco apareceu com Rafa no colo, corado e sorridente.
Uma onda de alívio percorreu seu corpo. Sobreviveram.
– Como foi?
– Tudo tranquilo. Pedimos pizza, brincamos…
E Francisco descreveu um dia comum. Sem loucuras extraordinárias, apesar de estarem descabelados. Sem nutrientes, apesar de estarem rechonchudos. Sem agasalho, apesar da temperatura de outono. De fato Rose surpreendeu-se com o sucesso da operação. Independente da falta de ordem, da sopinha de legumes e da roupa apropriada, lá estavam eles. Bem. Felizes. Exaustos. Sorridentes. Independentes. Finalmente ela poderia seguir adiante, sem ser essencial para o funcionamento do lar. Finalmente! Ahã. Ótimo. Tá. E agora?
– Ah, Francisco! Fraldas abertas no lixo da pia? Francamente. Entende o que eu vivo dizendo?

ACONTECEU COMIGO: O planeta sem margarina

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Estes dias, uma conhecida cronista de Porto Alegre escreveu um texto sobre falta de educação e citou em sua extensa lista, pais cujas crianças fazem birra em locais públicos e mães que deixam os filhos brincarem com tablets em restaurantes (“não querido, tablet não…. Estamos num comercial de margarina, então vamos fazer uma refeição de duas horas tranquilamente. Isso, sorrindo…”). Enquanto lia, quase engasguei com o suco, mas como meu filho tropeçou em seguida, não tive tempo hábil para tal.
Uma das mudanças mais interessantes que a maternidade proporciona é a intimidade súbita entre mães: você sentada numa mesa de restaurante, quando chega outra mulher com duas crianças a tiracolo, uma berrando, a outra pedindo para fazer xixi e imediatamente vocês se reconhecem sorrindo mutuamente, como que dizendo “Olá conterrânea planetária”. Sim, porque se os homens são de Marte e as mulheres de Vênus, as mães definitivamente compõem uma subclasse distinta, ocupando uma extensa região do planeta feminino ou até, outro astro todinho delas.
E uma vez inseridas na categoria, ou advindas da tal região extraterrestre, passam a trocam intimidades como se fossem amigas de infância:
– Acho que a pega do meu bebê não esta correta. Ui. Arde quando ele mama.
– Peraí, eu te ajudo. Isso, senta mais para lá, deixa o seio nesta posição. Ahã, posso mexer? OK, isso. Viu?
– Nossa, ficou perfeito.
E assim, numa fase em que você considera que ‘O que esperar quando se está esperando’ mereceria o Nobel de literatura, que a única política interessante é a de trocas e devoluções da loja infantil mais próxima e na sua última viagem mal notou a paisagem, mas tirou quatrocentas e vinte fotos do seu filho, vocês tem umas às outras, já que para o resto da sociedade passaram a ser aquela mulher que ‘Afe, não fala de outra coisa’.
– Vocês viram a situação da Ucrânia?
– Ahã.
– Hum… Não muito.
– Gente, faz oito dias que o Fabinho acorda de três em três horas a noite toda.
– Não acredito, já tentou o Nana Nenê? Tem gente que detesta mas em casa funcionou.
– Eu prefiro a técnica da Encantadora de Bebês. Quando ele chorar, entra no quarto…
O mercado já notou esta explosão de hormônios e necessidade de agregação, passando a oferecer serviços voltados para o público materno:
– Esta hidrodinástica é ótima, a gravidez me deixa com retenção de líquidos
– Isso que você ainda está no segundo trimestre. Eu mal ando. Sexo então, nem pensar.
– Aliás, prazer, Anabela
– Prazer, Juliana
Então, passada a fúria da carapuça que vestiu com o tal texto, resolvi relaxar. Afinal, cada um que converse com seus iguais. Quem sabe um dia, conterrâneas, também não sentemos numa tarde silenciosa, jogando conversa fora, discutindo política, Nobel de literatura e viagens culturais? E quando bater a fome:
– Garçom, me traz uma porção de margarina?

CRÔNICA: Anitor

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– O Maurício anda me cobrando. Eu chego exausta em casa. Falem sério, quantas vezes por semana na casa de vocês?
– Três.
– Du… Três.
– U… Três.
– Três.
– Eu faço até em cima do lustre!
Boquiabertas, todas admiram a amiga ninfomaníaca.
– Serio Ana? Quantos anos de casada?
– Dez.
Pensam pedir um autógrafo, mas Ana continua…
– Entre outras coisas.
Frenesi.
– Verdade?
– Ahã.
– Que outras coisas?
– De tudo um pouco. Gente, se não fazemos em casa, o marido procura fora.
– Por mim, fique à vontade.
– Ai, Clarice!
– Mas falando sério… Como é, Ana?
– Garçom, traz outro espumante, por favor?
Ana era uma referência. Moderna e vanguardista desde os tempos em que todas eram solteiras. Mas depois de dez anos, em cima do lustre? Mauro devia ser um homem muito feliz, todas tinham certeza.
—-
– Mauro, hoje é terça…
– Claro… Ana, estou para te sugerir algo há tempos.
– Fala…
– Um dia bem que podíamos tentar a cama…
– E cair na rotina?
– Mas deve ser mais confortável. Imagina que delicia, sábado à noite, na cama?
– Sábado? Cama?
– Está certo. Te encontro no horário de sempre?
– Sim, às dez, em cima do lustre. Pode deixar que eu levo todas as coisas.

ACONTECEU COMIGO: Ô tia, tipo assim

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O trânsito parou e diante da janela do passageiro, ele apareceu. Pele morena, sorriso lindo, cabelos cacheados e pose displicente, recostado ao muro verde. Quase abri a janela para puxar conversa, já que ele notou que eu o observava. Contive meu ímpeto, por sorte, mas teria dito:
– Menino, endireita a coluna e amanhã melhor sair com uma blusa mais fresca, por causa do calor, ta?
Choque! O muro verde era de um curso pré-vestibular e até pouco tempo, eu saia do colégio para almoçar na avenida Paulista e suspirar pelos ‘meninos do cursinho’ que caminhavam em direção ao Objetivo. De repente, passei a ter idade para ser mãe de todos aqueles representantes da raça masculina rebeldes e integrantes de bandas de garagem.
Quando foi que a vida passou em fast foward sem meu consentimento?
Meu mundo andava cheia de sinais e talvez eu já devesse tê-los notado. O comprimento das minhas saias, os bocejos antes da meia-noite, as visitas constantes à osteopata ou a construção de frases sem a palavra ‘tipo’. Mas este fato esfregou uma realidade que eu resistia a aceitar: para alguém de dezessete anos, eu sou tia. Tia!
Hoje, os representantes interessantes da mesma classe tem cabelos brancos (quando os tem), barriga saliente, filhos e quando querem ser rebeldes, exageram na cerveja. Fora que conversam, não gabam-se por cheirar acetona e já sabem que ‘sem celulite’ é propaganda enganosa de creme importado. De fato, os anos trazem mudanças significativas.
O trânsito andou. O menino deve ter continuado seu papo-cabeça-rebelde-banda-de-garagem e eu acelerei meu carro de tia, com dois assentos infantis no banco de trás e bolachinhas no porta-luvas para a hora da fome.
Pensei seriamente em terminar este texto discorrendo sobre o aprendizado e a experiência que o passar dos anos trouxe. As rugas, os cabelos brancos, alguma mensagem de auto-ajuda para a crise de meia idade. Pensei muito. Mas o final não poderia ser outro:
Céus! Eu tenho idade para ser mães dos meninos de cursinho!

CRÔNICA: Sempre

E foram felizes para sempre. Depois de perceberem aliviados que tudo saiu conforme o Pinterest. Depois de darem um selinho ao por-do-sol. Depois de entrarem num carro com teto retrátil. Depois de posarem para mais fotos. Depois de passarem por um túnel de bolinhas de sabão. Depois de comerem bem-casados. Depois dela jogar o buque. Depois de fingir por duas vezes que não jogaria. Depois de dançarem com enfeites comprados na Vinte e Cinco de Março. Depois de tirarem fotos com plaquinhas. Depois de dançarem sertanejo universitário. Depois de tocar ‘Abra suas asas’, do Lulu Santos. Depois do techno. Que foi depois da dance Music. Depois de terem subido ao palco para agradecer a presença de todos. Depois de comerem a sobremesa. Depois do prato principal. Depois das saladas. Que foi servida depois da valsa. Depois do vídeo de melhores momentos. Depois dos canapés. Depois de assinarem a papelada. Depois de cumprimentarem o juíz do cartório. Depois de posarem para fotos. Depois de saírem da igreja. Depois de cumprimentarem a família. Depois de beijarem-se. Depois da prédica do padre. Depois do noivo chorar. Depois da noiva entrar. Depois do cortejo desfilar. Depois de uma briga por um lugar supostamente roubado na primeira fila. Depois do pai da noiva chorar. Depois da noiva limpar a lágrima ao colocar o arranjo na cabeça. Depois da massagem regada a espumante do Dia da Noiva. Depois de postarem #chegouograndedia. Depois dela receber flores. Depois de ter emagrecido de ansiedade. Depois de pedirem um empréstimo para bancar os extras que não foram computados no orçamento. Depois de brigar com a sogra por causa do arranjo no altar. Depois de ter saído de uma festa e comentado com o noivo que “aquela festa estava cheia de clichês”. Depois de buscarem o convite na calígrafa. Depois de decidirem a arte do Save the Date. Depois de ter postado no Instagram. Depois dela ter dito “sim, mil vezes sim”. Depois dele ter perguntado se ela lhe concederia a honra de passar o resto da vida ao lado dele. Depois dele ter ajoelhado-se. Depois de ter escolhido um anel para pagar em doze vezes sem juros. Depois que ele percebeu que era hora. Era uma vez.

ACONTECEU COMIGO: Papéis de carta

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Eu tinha sete anos, era meiga, comportada e trocava papéis de carta na hora do recreio. Ele tinha a mesma idade, mas colecionava advertências no colégio – a versão infantil do tradicional cafajeste.
Até hoje não tenho certeza sobre qual dos atrativos o fez abdicar da vida de pular muros e falar palavrões em sala de aula: se foi meu jeito doce, o penteado chanel com franja ou a fantasia que meus pais me faziam usar em todos os eventos carnavalescos da infância:
– Eu estou de Branca de Neve. E você?
– De Melindrosa
– O que é isso?
– Não sei
A tal fantasia, feita em caráter exclusivo e sob medida na fábrica de lingerie do meu pai, consistia num corpete de renda com enchimento no soutien, adornado por penacho na cabeça, meia calça arrastão e cinta liga (sim, cinta liga). Para completar a posterior necessidade de terapia, minha mãe pedia que eu fizesse pose de “can can” para registrar tais momentos.
Então certa vez, saindo da aula após uma chamada oral de tabuada, um amigo veio entregar o papel de carta brilhante dobrado. Detalhe: o papel de carta brilhante está para os anos oitenta assim como a figurinha do Neymar no álbum da Copa está para os tempos atuais.
“Quer namorar comigo?”, em letras pré-alfabetizadas.
Querer eu não queria e como sempre tive facilidade em impor minhas opiniões:
– Responde que sim
A partir do dia seguinte, não fazia mais castelos de areia ou pulava amarelinha na hora do recreio. Eu andava de mãos dadas. Na educação física, ninguém podia atirar a bola em mim durante o jogo de queimada e na aula, trocávamos olhares. Longos. Infinitos. O negócio estava sério, apesar de um pouco chato.
Algum tempo passou e certo de seus sentimentos, outro papel de carta dobrado.
“Quer casar comigo?”.
Bom, não deve ser tão difícil assim. Apesar dos adultos viverem dizendo que a vida era complexa, eles não precisavam ir para a escola, não ficavam ansiosos se seriam os últimos escolhidos para o time de pique bandeira e nem tinham que decorar a tabuada. Estava pronta para este mundo. Além do mais, provavelmente poderia continuar morando com a minha mãe.
– Pode ser.
No recreio posterior, tirei minha saia de tule e camiseta branca da mochila para, sob olhar de alguns amigos, nos casamos antes do sinal tocar. Teve rabino mirim, buquê e copo de plástico quebrado. Até ganhei uma caixinha de música e um perfume de alfazema. Agora era pra valer, ai de quem encostasse em mim na queimada.
O tempo passou.
Até que dois dias depois, cansada da rotina de mãos dadas e invejando as brincadeiras das meninas, chamei o amigo de sempre:
– Diz pra ele que quero me separar.
Ele foi. E voltou com um papel de carta. Dobrado.
Não abri. Tinha medo de que ele estivesse dando um aviso “vou te pegar na saída”. Fui descobrir a mensagem alguns dias depois, na sala da diretora, com minha mãe explicando que por causa da carta eu estava com medo de ir para a escola.
“Mesmo você não me querendo mais, vou te amar para sempre”. Um coração com uma lágrima dentro.
Uma semana depois, ele estava casado com outra menina. E eu voltei à minha rotina de trocar papéis de cartas:
– Posso. Posso. Mais ou menos. Não posso. Posso.
– Você pode este brilhante?
– Ahã
– Uau!
E eu, com perfume de alfazema, achando graça na ingenuidade das meninas que ainda gostavam de papéis de carta sem declarações de amor.

CRÔNICA: O esteriótipo está apertado. Tem um número maior?

Carlos usa barba longa, brincos de argola, tem trinta e oito tatuagens e prefere jaquetas de couro. Em seu carro, um grande adesivo escancara “rock’n roll forever”, mas ele prefere mesmo dirigir sua moto, potente, sonho de consumo que alimentou por anos. É fã de Metallica e, como sempre teve ouvido musical, aprendeu a tocar baixo sozinho, aos treze anos. Frequenta bares às quintas e costuma pedir cerveja gourmet.
Nas horas vagas, faz tortas sob encomenda.

Carlos tem mãos fortes, importantes para sovar a massa, e paladar apurado. A mãe, exímia cozinheira, o introduziu no universo de aromas culinários e, provavelmente por isso, seu ambiente preferido da casa sempre foi a cozinha. É um alquimista. E nutre uma paixão especial por tortas. Mistura sabores inusitados e perfuma toda a vizinhança. Limão com papoula, amêndoas com laranja e – sua especialidade – maçã com canela e creme de baunilha são algumas das suas famosas delícias.
Às quintas-feiras, toca baixo em uma banda de rock.

Fernanda teve dois filhos e decidiu que seria uma mãe presente. Deixou seu cargo como gerente em uma multinacional e lançou um blog de maternidade. Registra as pinturas, os bolos e as caretas que faz com as crianças. Prepara refeições conforme a cartilha de sua geração – tudo orgânico, sem glúten, com farinha integral e chia. Impõe limites, acompanha os temas de casa, sabe de cor e salteado os centímetros, os kilos e o número de calçado de cada membro de sua família.
Três vezes por semana, frequentava casas de swing com o marido.

Fernanda sempre foi questionadora. Os padrões de comportamento vigentes não lhe pertenciam, bradava ela. Durante a juventude, cedeu a todas suas curiosidades. Até conhecer Maurício. Com ele, sentiu vontade de acomodar-se, alugar um apartamento, comprar um cachorro e comer cereais matinais na varanda. Durou pouco. Amavam-se, mas sabiam que seriam felizes apenas até que a monotonia da rotina os separasse. Eram voyers, pouco possessivos e parceiros de descobertas. Desde que descobriram as casas de swing vivem empolgados. Já decidiram que, se a relação voltar a cair na rotina, sairão atrás de novidades.
Ela apenas não gosta de voltar tarde para casa. Tem dois filhos e gosta de acordar cedo com eles.

Madame Jacquelyn é famosa por suas aulas de etiqueta. Seu cabelo, impecavelmente construído à base de bobes e laque, resistiria intacto a uma madrugada de Carnaval na avenida, coisa que – evidentemente – ela jamais cogitou frequentar. Suas mãos macias, com unhas sempre bem feitas, demonstram com sutileza aos alunos a posição ideal da faca de peixe e da taça de vinho rose. Em ocasiões especiais prefere espumante Brut e jamais consideraria servir um jantar que não fosse finalizado com madeleines.
E ela adora passar trotes telefônicos.

Madam Jacquelyn já pensou em frequentar a terapia. Mas, pensa ela, são tão pouco os prazeres da vida nesta sociedade hipócrita, que resolveu aceitar seu vício. Acorda e antes de colocar pepinos nos olhos, pega o telefone e disca um número aleatório. Faz piadas de gosto duvidoso, fala palavrões e gargalha. Sente um prazer inexplicável, talvez próximo ao êxtase. Ela só acha uma pena o advento da bina, que já lhe gerou alguns desconfortos. Enfim, poucas pessoas tem seu senso apurado de humor. A filha, por exemplo, que a considera louca.
Apenas para de gargalhar histericamente entre as quinze e as dezoito, quando ministra cursos de etiqueta em sua Maison.